À primeira vista, parece uma barbearia. Depois percebe-se que há um estúdio de tatuagens ao fundo, um bar no centro da sala, uma galeria de arte espalhada pelas paredes e um palco que muda de lugar conforme o concerto da noite. No Sr. Lopes Tattoo Barber & Lounge, em Braga, quase tudo foi pensado para cruzar pessoas, áreas criativas e histórias diferentes no mesmo espaço.
O projeto nasceu pelas mãos de Glauber Lopes e Roberta Leôncio, um casal brasileiro de 50 anos que chegou a Portugal no final de 2019 e decidiu transformar a experiência da imigração num conceito que mistura tatuagem, cultura, música e convívio. Hoje, o espaço tornou-se uma referência alternativa na cidade, mas o caminho até aqui esteve longe de ser simples.
“Eu sempre quis fazer algo diferente”, conta Glauber, tatuador há mais de 30 anos. “Já tinha lojas no Brasil e um projeto embrionário parecido com isto, mas quando vim para Portugal nem queria mais ter negócio próprio. A ideia era trabalhar para os outros.”
Tudo mudou depois da pandemia. O casal começou a sentir dificuldades na integração profissional e percebeu que existia espaço para criar algo diferente em Braga. “Quando chegámos, vimos muitas dificuldades ligadas à imigração. O pós-Covid acabou por ser o momento em que percebemos que fazia sentido avançar com a ideia.”
Glauber começou a tatuar quase por acaso. Um amigo comprou um kit de tatuagem nos anos 90, mas foi ele quem acabou por experimentar primeiro. Nunca mais parou. “A tatuagem veio até mim. Não fui eu que fui atrás dela”, recorda.
Já Roberta trabalhava no mercado imobiliário no Brasil. Mais tarde começou a colaborar nos negócios do companheiro na área da estética e micropigmentação. Em Portugal, acabou por encontrar uma nova profissão na barbearia, área que continua a assumir no espaço.
Antes de abrirem o Sr. Lopes, o casal passou por situações difíceis relacionadas com o facto de serem imigrantes. Glauber conta que chegou a receber respostas negativas de estúdios de tatuagem apenas por ser brasileiro. “Disseram-me coisas como: ‘vocês brasileiros vêm para cá querer ganhar dinheiro’. Houve muita resistência no início.”
Ao mesmo tempo, percebeu que existiam diferenças profundas no funcionamento do setor em Portugal. Na altura, quase todos os estúdios funcionavam apenas por marcação e de portas fechadas. “Quando chegámos a Braga praticamente não existiam estúdios de porta aberta. O nosso acabou por ser o primeiro na cidade.”
Foi também dessa experiência que surgiu a ideia de juntar tatuagem e barbearia no mesmo conceito. Mais tarde, o projeto cresceu para outras áreas culturais. Hoje, o espaço integra ainda bar, concertos ao vivo, exposições e eventos ligados à arte urbana e à música alternativa.
A disposição da loja foi desenhada precisamente para criar essa ligação entre diferentes ambientes. A barbearia funciona logo à entrada, como primeiro ponto de contacto. O bar ocupa a zona central, rodeado pela galeria de arte. Já o estúdio de tatuagem fica numa área mais reservada, ligeiramente elevada, mas sempre integrada visualmente no espaço. “A ideia era criar um ambiente totalmente integrado, onde uma área complementa a outra”, explica Glauber.
Encontrar o espaço ideal foi outra das grandes batalhas. O casal procurava uma loja ampla, central e com um ambiente industrial. Acabou por descobrir uma antiga garagem abandonada no centro de Braga, que durante décadas tinha funcionado como tipografia e estava fechada há cerca de 20 anos.
“Vimos o espaço pelo buraco da fechadura e percebemos logo que era perfeito”, recorda. O problema era encontrar os proprietários. Sem placas nem contactos disponíveis, Roberta acabou por localizar uma imobiliária que tinha anunciado a loja anos antes. Pouco depois conseguiram fechar o arrendamento.
A remodelação revelou-se ainda mais complicada. O casal contratou inicialmente um empreiteiro que abandonou a obra após receber a percentagem inicial do pagamento. O espaço ficou praticamente destruído e tiveram de fazer grande parte da reconstrução sozinhos.
“Fizemos tudo: paredes, teto, chão, canalização, eletricidade. Foram quatro meses aqui todos os dias a aprender e a construir”, conta Glauber.

O Sr. Lopes abriu oficialmente a 27 de abril de 2024. Desde então, o projeto cresceu não apenas como estúdio e barbearia, mas também como ponto de encontro cultural. Atualmente, recebe apresentações musicais quase todos os sábados e acolhe exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais.
A programação funciona de forma bastante informal. Muitos artistas chegam através de contactos diretos ou propostas espontâneas. O espaço não cobra pelas exposições. A lógica passa por criar visibilidade para músicos, ilustradores, fotógrafos ou tatuadores emergentes.
“A nossa ideia nunca foi fazer festas até de madrugada. Queremos abrir portas para artistas e criar oportunidades”, explica.
Além dos concertos semanais, o espaço recebe eventos do coletivo Massive, ligado à cultura Drum and Bass, normalmente no último sábado de cada mês. O palco é móvel e adapta-se ao tipo de atuação, enquanto a galeria vai mudando conforme os artistas convidados.
O conceito também se reflete nos serviços. As tatuagens começam nos 50€, dependendo da dimensão e complexidade do trabalho. Já os cortes de cabelo começam nos 15€ e as barbas nos 10€, existindo ainda vários serviços combinados.
Hoje, o espaço funciona com uma equipa maior do que no início e recebe constantemente novos colaboradores e artistas residentes. Ainda assim, Glauber diz que o maior orgulho não está necessariamente no sucesso do negócio, mas no processo que viveram até aqui.
“As pessoas olham para a loja e falam do orgulho que devemos sentir. Mas o nosso maior orgulho é percebermos que fomos capazes de construir isto tudo praticamente sozinhos.”
Até o nome do espaço tem uma história curiosa. Apesar de nunca ter gostado de usar o próprio nome nos negócios, Glauber percebeu que um nome mais português poderia criar maior proximidade em Braga. Acabou por nascer assim o Sr. Lopes, inspirado no apelido da família e complementado informalmente pela Sra. Leôncio, numa espécie de dupla invisível que representa o casal por trás do projeto.








