Num dia comum, perto de 700 pessoas atravessam as portas do número um da Rua de São Paulo. Umas procuram um lugar silencioso para estudar, outras levam livros para casa, assistem a uma conversa, visitam uma exposição ou acompanham os filhos numa hora do conto. Mais de duas décadas depois de abrir, a Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva tornou-se um dos espaços culturais mais movimentados de Braga.
A história começou antes de o edifício sequer existir. Em 1990, a Universidade do Minho e a Câmara de Braga manifestaram junto do Ministério da Cultura a vontade de integrar a cidade no Bibliopolis, projeto criado para levar bibliotecas públicas modernas a quatro grandes centros urbanos e aproximá-los da Rede Nacional de Leitura Pública. A parceria deu origem à BLCS, que abriu oficialmente a 21 de dezembro de 2004 e completa 22 anos no final de 2026.
A biblioteca recebeu o nome de Lúcio Craveiro da Silva, sacerdote jesuíta, professor e escritor que marcou a vida académica e cultural de Braga. Integrou a comissão instaladora da Universidade do Minho e, mais tarde, tornou-se reitor da instituição e o primeiro a ser eleito para o cargo em Portugal. Dirigiu também a Faculdade de Filosofia de Braga e presidiu ao Conselho Cultural da UMinho. A homenagem foi feita ainda em vida, quando completou 90 anos. Morreu em Braga, em 2007, aos 92.
O edifício foi desenhado pelo arquiteto Mário Abreu, no centro histórico, numa zona com vestígios arqueológicos. Em vez de os esconder, o projeto integrou-os e deixou-os à vista. Essa ligação à história mantém-se nas visitas “De Insula Romana à Biblioteca”, que mostram cerca de dois mil anos do local.
A biblioteca pode receber até 600 pessoas ao mesmo tempo. Tem três salas de leitura para adultos, uma área infantojuvenil, um espaço para atividades infantis, uma sala de expressão plástica, equipamentos multimédia, um auditório com 160 lugares, uma sala de exposições e um bar. A coleção tem atualmente 501.491 livros e outros documentos, além de milhares de filmes, músicas e recursos digitais.
Aida Alves acompanhou grande parte deste percurso. Começou a trabalhar na BLCS no ano da abertura, como técnica superior de Biblioteca e Documentação, e tornou-se diretora em janeiro de 2007. Antes disso, trabalhou no Centro de Documentação Europeia da Universidade do Minho. Estudou Ensino de Português na UMinho, fez uma pós-graduação em Ciências Documentais na Universidade do Porto e frequentou estudos avançados em Métodos de Investigação em Biblioteconomia na Universidade de Salamanca.
A sua relação com as bibliotecas começou ainda antes da BLCS. Em 1991, começou a trabalhar na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, no Centro de Documentação Europeia. No ano seguinte, entrou na licenciatura em Estudos Portugueses. Estudou enquanto trabalhava e terminou o curso em 1996, depois de um estágio na Escola Secundária de Monserrate, em Viana do Castelo.
Mais tarde, decidiu estudar Biblioteconomia para aprender mais e poder avançar na carreira. Entre 1997 e 1999, fez a pós-graduação em Ciências Documentais. Foi aí que entrou mais a fundo na área da informação e da documentação. Depois, interessou-se pela investigação e foi para a Universidade de Salamanca, onde concluiu a parte académica avançada do doutoramento.
Ao longo dos anos, também deu formação na Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação e foi assistente convidada na Universidade Católica Portuguesa. Deu aulas sobre Ciência da Informação, organização de documentos e análise documental, acompanhou estágios e ajudou a orientar trabalhos académicos. O seu trabalho tem passado pelos livros, pela tecnologia, pela formação e pela gestão cultural.
A relação com a leitura não é apenas profissional. “Os livros, para mim, funcionam como um lugar de descoberta e um abrigo perante a agitação quotidiana. Não me vejo sem livros, em papel ou digital”, admite. Para a diretora, que tem 55 anos, ler pode ajudar a aliviar tensões e a dar espaço para cada pessoa avançar ao seu ritmo. “A atividade mais nobre a ter com um livro é lê-lo.”
Os números mostram a dimensão que a biblioteca alcançou. A BLCS tem 34.922 leitores inscritos e recebe, em média, cerca de 1.100 novos utilizadores por ano. Em 2025, passaram pelo edifício 178.631 pessoas. Só nos primeiros seis meses de 2026, foram 91.109.
O empréstimo de livros para casa também voltou a crescer depois da pandemia. Em 2020, foram emprestados 20.831 livros. Em 2023, o número subiu para 70.718; em 2024, chegou aos 72.218; e no último ano atingiu os 76.102. Até ao final de julho de 2026, já tinham sido registados mais 39.043 empréstimos. Apenas cerca de um por cento dos empréstimos fica por regularizar. Em quase todos os casos, os livros acabam por voltar depois de a biblioteca contactar os leitores.
“Mais do que espaços de empréstimo de livros, as bibliotecas são lugares democráticos, inclusivos e de cidadania ativa”, diz Aida Alves. É também por isso que a programação da BLCS tenta chegar a pessoas de diferentes idades e interesses, dentro e fora do edifício.
Uma das coisas que mais satisfaz a diretora é ver as pessoas a usarem a biblioteca como se fosse delas. “Muitos bracarenses, sobretudo os estudantes, sentem-se em casa na BLCS”, afirma. A biblioteca tornou-se um espaço vivo, feito também por quem lá vai. Ainda assim, Aida Alves reconhece que é preciso chegar melhor às zonas mais afastadas do centro.
Durante setembro, o “Consultório de Leituras” ajuda quem procura sugestões de livros. O atendimento é individual e gratuito e pode servir tanto para encontrar uma leitura de acordo com os gostos de cada pessoa como para escolher um livro sobre um tema específico. É preciso marcar com dois dias de antecedência. Para as crianças dos três aos 13 anos, “A magia do Era uma vez” regressa nos dias 10, 17 e 24. Já “Aqui há histórias!” leva, a 15 de setembro, momentos de leitura e atividades para estimular a memória a lares e centros de dia.
No mesmo dia, há um workshop de jogos populares. A oficina “Entre Agulhas e Linhas”, marcada para 16, 23 e 30 de setembro, junta tricô, malha, bordado e ráfia. O objetivo é aprender, criar e conviver. O Clube dos Leitores Anónimos reúne-se a 16 de setembro para falar sobre leituras de verão, sem necessidade de inscrição. No dia seguinte, o clube ligado ao núcleo bracarense da APRE conversa sobre “Manifesto Pela Leitura”, de Irene Vallejo.
As visitas guiadas de 17 e 18 de setembro vão mostrar a ligação entre o edifício e a antiga Bracara Augusta. A partir de 18 de setembro, a sala de exposições recebe “Territórios do imaginário: lugares encantados”, integrada nos Encontros da Imagem. A mostra pode ser visitada até 29 de outubro. O mês inclui ainda conversas sobre história local, Direito Civil e violência infantil, apresentações de livros, cinema e o workshop “IA e Robótica para um Planeta Inteligente”, dirigido a alunos do secundário no Fórum Braga, a 25 de setembro.
Em outubro, o Ciclo de Cinema Lucky Star ocupa as noites de terça-feira, sempre às 21h30. O programa começa no dia seis com filmes de Susana Sousa Dias e Ainá Xisto. No dia 13, é exibido “Amor Fati”, de Cláudia Varejão. A 20 de outubro, passam “O Que Brotou”, de Bruno D’Azar, e uma obra de Michelangelo Frammartino. No dia 27, é a vez de “O Tio Boonmee Que Se Lembra das Suas Vidas Anteriores”, de Apichatpong Weerasethakul. A programação completa está disponível online.
A BLCS está também a preparar a futura Biblioteca Digital do Cávado – AQUALIBRI, um Plano Local de Leitura e o alargamento de serviços como a BiblioLED e o PressReader. Participa ainda em projetos europeus sobre inclusão, igualdade e diálogo entre culturas.
“A nossa visão para o futuro passa por consolidar a Biblioteca como um centro de conhecimento, inovação, inclusão e aprendizagem ao longo da vida”, resume a diretora.
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