Fundada em 1992 por Cristina Mendanha, a Arte Total nasceu com uma visão clara: pensar a dança como arte, como linguagem e como forma de educar através do corpo. Numa altura em que o ensino da dança contemporânea ainda dava os primeiros passos fora dos grandes centros, a escola tornou-se pioneira no Norte, assumindo a arte como veículo de pensamento crítico, liberdade, disciplina e criação. Ao longo de 33 anos, formou intérpretes, coreógrafos, professores, técnicos, mas sobretudo pessoas: cidadãos sensíveis, atentos e capazes de pensar o mundo em movimento.
Desde o início de novembro, a cidade tem um novo espaço para dançar — ainda que seja, na verdade, um regresso a casa. A Arte Total reabriu oficialmente as instalações originais, no Mercado Cultural do Carandá, o edifício desenhado por Eduardo Souto de Moura que marcou gerações de alunos, projetos artísticos e criações coreográficas ao longo de três décadas. Com duas salas renovadas, mais luz, nova energia criativa e um plano ambicioso para o futuro, a escola volta a ocupar o lugar onde sempre pertenceu. Não apenas como um regresso físico, mas como o reatar de uma história que nunca deixou de pulsar.
O espaço que volta a acolher a instituição faz parte dessa identidade. Souto de Moura desenhou ali proporções e luz com uma precisão que convida à criação. Ao longo dos últimos anos, com o edifício em reabilitação, a escola manteve aulas e projetos ativos em espaços alternativos — mas o reencontro com este lugar tem agora um peso emocional e artístico. “O Mercado Cultural do Carandá é casa da Arte Total há mais de 30 anos. Nunca deixámos de trabalhar, mas regressar aqui com o espaço renovado é voltar à nossa base com mais força e ambição”, partilha Carolina Vieira, professora e bailarina.
A reabilitação devolveu à Arte Total dois estúdios amplos — um com 100 metros quadrados, outro com 150 — preparados para ensaios, aulas, residências artísticas e criações coreográficas. A arquitetura não é apenas estrutura: é diálogo. “A luz, as proporções e a materialidade influenciam o movimento e alimentam novas formas de expressão”, explica Carolina. Dança e espaço tornam-se corpo único — o edifício respira com quem dança.
A escola mantém um método de ensino assente no rigor técnico e na liberdade criativa. Trabalha com programas reconhecidos internacionalmente — Royal Academy of Dance, Rambert Grades e Progressing Ballet Technique — que garantem estrutura, vocabulário técnico e progressão consistente. Mas a técnica, aqui, não é fim — é ferramenta. “Educar para criar é unir disciplina e prazer, corpo e pensamento. O ensino só faz sentido quando permite que cada aluno descubra o seu lugar na dança e em si”, reforça a professora Gabriela Barros.
As aulas começam cedo, muitas vezes ainda na infância — entre jogos, improvisação e imaginação. A dança é descoberta antes de ser técnica. É forma de comunicar, ganhar confiança, aprender a estar no corpo e com o outro. “A nossa missão é formar pessoas antes de formar bailarinos”, sublinha Gabriela. Coordenação, concentração, respeito, trabalho em equipa, gestão emocional — tudo nasce ali, dentro do estúdio, em movimento.
É também por isso que a Arte Total se tornou mais do que uma escola: é comunidade. Famílias entram, acompanham, conversam; os miúdos crescem, tornam-se jovens, regressam já adultos; professores e alunos constroem relação de proximidade e confiança. O erro não é fracasso — é parte do processo. A diferença não é exceção — é celebrada. Cada corpo dança como é. Cristina Mendanha, fundadora e diretora, resume: “O que permanece inalterável é a essência: a visão da dança como arte de pensar o corpo e transformar quem a pratica e quem a vê.”
A relação humana sente-se em cada esquina da escola e é ela que mantém a Arte Total viva. Muitos alunos que começaram ainda pequenos regressam agora como adultos, pais tornam-se amigos, famílias inteiras criam laços dentro destas paredes brancas que acolhem histórias, ensaios e quedas que viram conquistas. Testemunhos não faltam para perceber a dimensão afetiva que a dança tem neste lugar. “Adoro ter a liberdade de criar e expressar emoções com os amigos que só a dança cria. Esta casa parece família, feita de cooperação e inclusão”, conta Alice Ferreira, que ali cresceu durante 12 anos. Lia Castro, também aluna ao longo de mais de uma década, lembra que encontrou na escola “um refúgio”, e que a dedicação dos professores fez com que preservasse a dança não apenas como atividade, mas como necessidade. A memória é igualmente partilhada por Patrícia Cunha, mãe de duas alunas, que descreve a escola como um espaço onde se reconhece pertença: “Somos praticamente três gerações na família a frequentar a Arte Total. O que mais admiro é a liberdade, a criatividade e o sentido de comunidade.” São relatos que mostram que, aqui, não se ensina apenas técnica — constrói-se vínculo.
A escola tem produzido criações originais, apresentado espetáculos anuais, colaborado com artistas e instituições culturais, promovido laboratórios, oficinas e residências. É um polo cultural ativo em Braga — e um mediador entre comunidade e artes performativas. “Queremos aproximar o público da criação, cultivar sensibilidade artística e formar espectadores curiosos e participativos”, diz Cristina.
Os espetáculos, apresentados anualmente, são um dos momentos mais aguardados por alunos e famílias. Não apenas como mostra final, mas como culminar de um percurso. “O palco transforma timidez em expressão, nervosismo em energia. Muitos alunos descobrem ali uma confiança que depois levam para a vida”, partilha a direção.
Com a reabertura, o programa pedagógico mantém diversidade para todas as idades — com ballet infantil e vocacional, dança contemporânea para diferentes faixas etárias, studio training focado em força, mobilidade e Progressing Ballet Technique, bem como oficinas de criação e artes visuais. A isso juntam-se residências artísticas e workshops regulares, muitas vezes conduzidos por convidados externos. Os valores variam consoante a modalidade e número de aulas por semana, mas, de forma indicativa, as mensalidades regulares rondam entre 35€ e 65€, variando entre os 60€ a 95€ no caso do ballet vocacional e programas de progressão técnica. Já os workshops pontuais costumam situar-se, regra geral, entre 10€ e 35€ por sessão. Como cada aluno tem necessidades e objetivos diferentes — seja profissionalização, desenvolvimento artístico ou prática recreativa —, a escola recomenda sempre contacto direto para criar um plano ajustado ao perfil de cada participante.
O futuro chega com passos firmes. O objetivo agora é consolidar Braga como cidade de dança — com criação, formação, investigação e participação ativa do público. “O sonho que ainda falta dançar é o de colocar a dança no centro cultural da cidade”, afirma Cristina.
A Arte Total renasce — mas não começa do zero. Regressa com história, experiência, corpo e memória.
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