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Bruno vive em Braga e vai levar as memórias e tradições portuguesas à Coreia do Sul

O artista vai apresentar “serramar” em Seul, uma instalação imersiva sobre práticas ancestrais portuguesas que resultaram da exploração de Santa Maria da Feira.

Durante semanas a fio, percorreu Santa Maria da Feira a explorar redes puxadas na areia, receitas antigas que ainda saem do forno e métodos agrícolas mantidos quase sem alterações. Pelo caminho, Bruno Rodrigues Martins foi encontrando um fio comum. E foi dessa imersão no território que nasceu “serramar”, um projeto focado no património cultural, gastronómico e geográfico da região. A obra viaja agora até à Coreia do Sul.

O artista de 30 anos, que vive em Braga, vai apresentar esta instalação audiovisual na Sahng-Up Gallery, em Seul, entre 23 de abril e 1 de maio. A exposição marca a sua estreia na Ásia.

Natural de Santa Maria da Feira, Bruno trabalha sobretudo com vídeo e instalação, explorando a relação entre imagem, som e espaço. Durante vários anos utilizou o vídeo em contexto mais comercial, mas sentia que lhe faltava algo. “Isso foi sempre criando uma insatisfação pessoal quanto ao propósito da criação audiovisual”, explica. A mudança começou a ganhar forma no verão de 2021, quando apresentou a sua primeira proposta de instalação no programa Laboratórios de Verão do gnration, iniciando aí um percurso mais ligado ao contexto expositivo.

Hoje, a sua prática artística parte muitas vezes da memória coletiva e da experiência partilhada. “A memória e a experiência coletiva acabam por ter um papel central na minha prática porque são as pontes entre passado, presente e futuro”, diz.

Foi precisamente essa linha de pensamento que deu origem a “serramar”. O projeto nasceu de uma residência artística em Santa Maria da Feira, a partir de uma open call focada no património cultural da região. Durante várias semanas, o artista mergulhou no território e identificou três práticas que continuam vivas no quotidiano local: a Arte Xávega, uma técnica de pesca milenar; uma receita de pão com mais de 500 anos; e um método agrícola de produção de cogumelos.

A partir dessa investigação, construiu uma instalação multicanal composta por três vídeos imersivos, apresentados lado a lado. O resultado é uma experiência sensorial que não procura comparação nem contraste entre os elementos. “Não procuro as diferenças nem a similaridade, mas a harmonia”, explica o artista.

A acompanhar este percurso está também a Asteróide Fértil, uma associação cultural sem fins lucrativos sediada em Braga, da qual o artista faz parte. A estrutura tem vindo a apoiar a divulgação e circulação do projeto, contribuindo para que exposições como “serramar” cheguem a novos palcos internacionais e reforcem a presença de artistas locais fora do país.

Viver e criar em Braga também tem ajudado a moldar este percurso e Bruno reconhece sinais positivos no panorama cultural local. Ainda assim, defende que é preciso continuar a investir em estruturas e oportunidades que permitam fixar e apoiar artistas na cidade.

“serramar” foi apresentada pela primeira vez em abril de 2025, no Castelo de Santa Maria da Feira, e chega agora ao circuito internacional. A oportunidade de expor em Seul surgiu de forma inesperada, depois de uma residência artística que acabou por não se concretizar. “Como o tempo trata de tudo, o meu trabalho acabou por chegar a outras pessoas que o quiseram muito receber”, conta.

Levar uma obra tão enraizada no território português para o outro lado do mundo tem um significado especial. “É muito especial estrear-me na Ásia com uma peça tão culturalmente intensa”, diz. E há uma expectativa clara em relação ao público asiático: “Sabemos a importância que dá à história e à tradição”.

Esta não é a primeira experiência internacional de Bruno Rodrigues Martins, que já apresentou trabalho em França e nos Países Baixos, mas é a primeira fora da Europa. Ainda assim, acredita que a diferença não está na forma como a arte é percebida, mas sim na forma como é valorizada.

A participação nesta exposição conta com o apoio da Embaixada Portuguesa na Coreia e dos municípios de Braga e de Santa Maria da Feira. Um suporte essencial para viabilizar um projeto desta dimensão. “Este tipo de exposições têm uma exigência logística e financeira enorme, não é simplesmente pegar numa mochila e ir”, sublinha.

Apesar de trabalhar num circuito cada vez mais internacional, Bruno mantém uma ligação próxima a Braga, cidade onde está atualmente sediado e onde vê sinais de mudança no panorama cultural. “Há hoje mais proximidade e interesse real no tecido artístico”, reconhece.

Para o futuro, há novos projetos em desenvolvimento, incluindo uma criação prevista para Barcelona ainda este ano. Mas, mais do que planos concretos, há uma intenção clara: continuar a criar. “Acima de tudo, quero ter o espaço e a disponibilidade para o fazer.”

Se tivesse de resumir o seu trabalho, evita definições fechadas. Prefere deixar espaço para interpretação — e reação. “Gostava muito que as pessoas adorassem ou odiassem esta instalação, só não quero a indiferença”, diz.

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