cultura

Esta ilustradora de Braga criou um podcast que se lê (e um livro para colorir a cidade)

Depois de conquistar seguidores com as suas ilustrações, Iolanda transformou memórias e conversas em dois novos projetos criativos.

Os livros para colorir já não são apenas um passatempo para os miúdos. Nos últimos meses, tornaram-se uma tendência entre adultos à procura de formas de relaxar e estimular a criatividade. Ao mesmo tempo, os podcasts continuam a surgir em força, embora quase todos partilhem o mesmo formato: ouvir uma conversa. Iolanda Guimarães decidiu juntar os dois mundos e criar algo diferente.

A ilustradora, que vive em Braga, lançou a 1 de março o (POD)ilustrar, um podcast ilustrado que se lê e vê. Esta segunda-feira, 2 de junho, apresentou também “Linhas de Amor — Livro de Colorir Braga”, uma publicação dedicada à cidade.

Os dois projetos nascem da mesma ideia de contar histórias através do desenho. É precisamente isso que Iolanda faz há vários anos através da página i.lus.tra.me, onde já reúne quase nove mil seguidores no Instagram. Natural de Trás-os-Montes, a ilustradora de 30 anos cresceu rodeada de desenho, pintura e trabalhos manuais. Muitas dessas memórias estão ligadas à avó paterna, com quem passava horas a desenhar paisagens e momentos do dia a dia. Mais tarde, seguiu Design de Moda na Universidade da Beira Interior.

“O meu percurso no ensino secundário foi sempre ligado às artes. Acabei por seguir Design de Moda porque também é uma forma de criar e ter liberdade de expressão. Contudo, a ilustração é o meu cantinho, um refúgio para descomprimir e levar cor e memória às pessoas”, conta à NiB.

Há cerca de oito anos mudou-se para Braga, onde vive e trabalha como designer de moda. A ilustração foi durante muito tempo um projeto paralelo, mas tudo mudou durante o confinamento. “Como estava fechada em casa, comecei diariamente a fazer um desenho sobre o dia. Fui partilhando nas redes sociais e percebi que as pessoas gostavam. Criei uma página exclusivamente dedicada ao projeto e nunca imaginei o alcance que viria a ter.”

Desde então que o projeto não parou de crescer. A novidade mais recente é o (POD)ilustrar, um conceito que a autora acredita ser praticamente inexistente em Portugal. A ideia surgiu em 2024. Ficou alguns meses na gaveta e acabou por ganhar forma este ano. Em vez de publicar entrevistas em formato áudio, Iolanda transforma cada conversa numa narrativa visual feita de texto, ilustrações e pequenas animações. “Trata-se de um podcast ilustrado que cruza conversa, ilustração e pequenas animações. É como uma banda desenhada animada construída a partir de uma entrevista”, explica.

Durante as conversas, recolhe frases, memórias, episódios e detalhes partilhados pelos convidados. Depois transforma tudo em imagens desenhadas à mão que acompanham a narrativa. O projeto estreou-se a 1 de março e prevê novos episódios de dois em dois meses. Os convidados passam por áreas tão diferentes como a arte, a literatura, a neurociência, a criatividade e a cultura.

O episódio de estreia acabou por ser também o mais pessoal. Em vez de convidar uma figura pública, Iolanda sentou-se à mesa com três amigas: Joana, Lúcia e Paula, mais conhecida por Kika. “Escolhi que o episódio piloto fosse com elas porque são o meu apoio nos eventos e workshops. Estão nos bastidores, ajudam a montar, a organizar e a acreditar. São amigas e são equipa.”

 
 
 
 
 
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O encontro aconteceu durante um brunch onde conversaram sobre criatividade, amizade e momentos que gostariam de guardar para sempre. Entre as histórias partilhadas estavam uma viagem a solo pela Suíça, uma missão de voluntariado na Guiné-Bissau e a conclusão de um mestrado. Mais tarde, todas essas memórias ganharam forma através dos desenhos.

Em abril chegou o segundo episódio, dedicado ao tema da liberdade. A convidada foi a ilustradora Marta Nunes, que falou sobre a mudança da arquitetura para a ilustração, a importância da expressão criativa e a forma como procura dar voz a diferentes histórias através do seu trabalho. O episódio mais recente foi lançado a 1 de junho. A convidada foi Carla Sepúlveda e a conversa prolongou-se durante quase três horas num café de Braga.

Ao longo do encontro, falaram sobre museus, memória coletiva, tradições minhotas e voluntariado na Guiné-Bissau. Carla recordou a primeira visita ao Museu do Louvre, em Paris, ainda em criança, falou da ligação aos trajes minhotos herdada da mãe e recordou uma missão solidária em Bissau que considera um dos momentos mais marcantes da sua vida.

Partilhou ainda o impacto das frases que publica diariamente nas redes sociais. Uma delas chegou a ser destacada por um seguidor que lhe contou ter desistido de cometer uma loucura depois de ler uma das suas mensagens. “Para te tornares melhor, precisas de aprender com os melhores”, escreveu Carla numa publicação que acabou por servir de mote para o episódio.

A artista.

Os episódios continuam a chegar de dois em dois meses e seguem sempre a mesma lógica: “Conversas reais transformadas em narrativa visual, pensadas para serem lidas com tempo”.

“Linhas de Amor — Livro de Colorir Braga” foi lançado a 2 de junho e surge na sequência da exposição “Linhas de Amor… por Braga”, apresentada em maio de 2024 no Palácio do Raio.

O livro reúne várias ilustrações inspiradas em monumentos, locais emblemáticos, património e memórias da cidade. A proposta é simples: cada pessoa pode pintar as páginas à sua maneira e transformar cada exemplar numa peça única. “Mais do que um livro de colorir, esta edição pretende ser uma experiência afetiva e artística de ligação à cidade”, explica.

Ao longo das páginas surgem alguns dos espaços mais conhecidos de Braga, reinterpretados através do traço delicado que caracteriza o trabalho da ilustradora. O objetivo passa por redescobrir a cidade através da criatividade e da cor.

O livro está à venda por 14,90€ e pode ser comprado através das redes sociais da artista, bem como nos eventos e mercados onde costuma marcar presença.

Apesar dos novos projetos, permanece a vontade de preservar memórias, seja através de retratos personalizados, exposições, workshops, livros ou podcasts ilustrados, Iolanda acredita que o desenho tem a capacidade de guardar momentos que o tempo acaba por levar. “É pelo contacto com as pessoas que encontro o meu propósito. Saber histórias de vida, marcar as pessoas com memórias visuais e dar-lhes espaço para criar continua a ser o mais satisfatório em tudo o que faço.”

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