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Matou 3 amigas durante o chá da tarde. Agora inspirou o novo documentário da Netflix

Yiya Murano levava uma vida de glamour na alta sociedade da Argentina, mas acumulava dívidas num esquema de pirâmide.

Uma elegante mulher idosa, chamada Yiya Murano, não conseguiu evitar sorrir quando Mirtha Legrand, uma das mais famosas apresentadoras da Argentina, lhe ofereceu bolos durante o seu popular talk show. O cenário era semelhante àquele que tornou Murano num nome conhecido em todo o país.

Afinal, 17 anos antes, em 1979, a argentina matou três mulheres (uma vizinha, uma amiga da família e uma prima), envenenando o chá da tarde e os bolos que ela própria serviu. O motivo? Um esquema em pirâmide que deixou Yiya profundamente endividada para com as vítimas. Agora, a sua história é contada em “Morta à Hora do Chá”, documentário que estreou na Netflix a 20 de abril. Atualmente, é a nona produção mais vista em Portugal.

María de las Mercedes Bernardina Bolla Aponte de Murano nasceu a 20 de maio de 1930, em Corrientes, e construiu durante anos a imagem de uma mulher elegante, sociável e inserida nos círculos da classe média alta de Buenos Aires. Casou-se jovem com um advogado e teve um filho, levando uma vida aparentemente estável. Mas por trás dessa fachada, acumulava dívidas, mantinha vários relacionamentos extraconjugais e vivia muito acima das suas possibilidades.

Nos anos 70, em plena crise económica na Argentina, Yiya começou a pedir dinheiro emprestado a amigas, vizinhas e familiares, prometendo investimentos com lucros elevados. O esquema funcionava como uma espécie de pirâmide informal — pagava a algumas com o dinheiro de outras, criando a ilusão de um negócio rentável.

O problema surgiu quando deixou de conseguir cumprir os pagamentos. Em vez de assumir as dívidas, tomou uma decisão que marcaria para sempre a história criminal do país. Entre fevereiro e março de 1979, três mulheres do seu círculo próximo morreram em circunstâncias semelhantes: após encontros aparentemente inofensivos, muitas vezes à hora do chá, onde lhes eram servidos bolos.

As vítimas foram Nilda Gamba, uma vizinha; Lelia “Chicha” Formisano de Ayala, amiga; e Carmen Zulema del Giorgio de Venturini, a sua prima. Todas elas tinham emprestado dinheiro a Yiya.

 

Inicialmente, as mortes foram atribuídas a causas naturais, como paragens cardíacas. No entanto, a repetição do padrão levantou suspeitas. Após investigação e exumação dos corpos, foi identificado cianeto como causa de morte — um veneno potente que teria sido administrado através dos alimentos servidos durante esses encontros.

Yiya Murano foi detida a 27 de abril de 1979, em sua casa. O caso tornou-se um dos mais emblemáticos da criminologia argentina. Apesar das evidências, a suspeita sempre negou qualquer envolvimento, chegando a afirmar: “Nunca convidei ninguém para comer”.

O processo judicial foi longo e controverso. Inicialmente absolvida por falta de provas, Yiya Murano acabaria por ser condenada em 1985 pelos três homicídios. Ainda assim, beneficiou de reduções de pena e saiu da prisão após cerca de 16 anos. Um episódio que contribuiu para o fascínio à sua volta foi o facto de ter enviado uma caixa de bombons aos juízes que facilitaram a sua libertação.

Depois de sair em liberdade, Yiya Murano tornou-se uma figura ainda mais mediática na Argentina. Deu entrevistas, participou em programas de televisão e continuou a insistir na sua inocência, alimentando o mistério e a polémica. A sua personalidade — fria, manipuladora e teatral — contribuiu para que fosse vista quase como uma personagem de ficção.

Apesar de ter sido condenada por três mortes, sempre existiram suspeitas de que poderia haver mais vítimas. O próprio filho veio a público, anos depois, revelar que acreditava que a mãe teria cometido outros homicídios que nunca chegaram a ser provados.

Os últimos anos da sua vida foram discretos e solitários. Viveu num lar de idosos em Buenos Aires, longe do mediatismo que a tinha acompanhado durante décadas. Morreu a 26 de abril de 2014, aos 83 anos.

Carregue na galeria para conhecer outros filmes que estrearam em abril nas plataformas de streaming e canais de televisão.

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