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Menos ecrãs, mais livros: obras gratuitas podem ser lidas nos autocarros de Braga

O projeto transforma transportes públicos em espaços de leitura gratuita. A iniciativa chega pelas mãos de uma escritora brasileira.

Encontrar um livro num autocarro ou numa paragem já não é assim tão estranho, pelo menos em Braga. Desde 17 de dezembro, a cidade faz parte do projeto Páginas em Movimento, uma iniciativa que espalha livros pelos transportes públicos e convida quem passa a levá-los, lê-los e voltar a deixá-los para outros leitores. A ideia nasceu em Lisboa no verão passado e chegou ao Norte, com Braga entre os primeiros destinos desta biblioteca informal e gratuita sobre rodas.

O projeto foi criado pelo escritor angolano Neo Yasuke, residente em Portugal desde novembro de 2024, que percebeu que muitas pessoas passam longos períodos em deslocações diárias, quase sempre com o telemóvel na mão, mas raramente com um livro. Para contrariar esse hábito, imaginou uma forma de deixar livros em autocarros, comboios e metro, acessíveis a qualquer pessoa, sem registos, custos ou regras.

“Via as pessoas nos transportes sempre no telemóvel. Pensei que talvez muitos não lessem porque não tinham livros”, explica o fundador, de 30 anos. A dinâmica é simples. Quem encontra um livro pode lê-lo durante a viagem, levá-lo para casa e, mais tarde, devolvê-lo a outro transporte público. Cada exemplar inclui um QR Code que explica o funcionamento do projeto e convida à partilha do percurso do livro.

Depois de angariar centenas de leitores em Lisboa, o Páginas em Movimento chegou agora a Braga pelas mãos de Cláudia Negishi, escritora e ilustradora brasileira residente na cidade desde setembro de 2023. É a embaixadora do projeto no Norte de Portugal e foi quem decidiu trazer a iniciativa para o território bracarense.

“Queremos democratizar o acesso ao livro e transformar deslocações diárias em experiências culturais”, explica a responsável, de 35 anos. “A longo prazo, o objetivo é envolver a própria comunidade, para que cada pessoa possa ser agente de partilha e fazer circular livros que já não usa”, acrescenta.

O arranque do projeto em Braga aconteceu num momento em que a cidade detinha o título de Capital Portuguesa da Cultura 2025, o que ajudou a reforçar o enquadramento de iniciativas ligadas à participação comunitária e ao acesso democrático à cultura. A implementação depende do envolvimento de voluntários e da doação de livros, que recebem títulos de vários géneros, da literatura infantil à não-ficção.

 

 
 
 
 
 
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A escolha de Cláudia Negishi para liderar o projeto no Norte está ligada ao seu percurso pessoal. Arquiteta de formação e ex-gestora corporativa, mudou de vida após o nascimento do primeiro filho, há sete anos, para se dedicar à escrita e à ilustração com foco na literatura infantil. Em 2023 publicou o seu primeiro livro, “Vovó Sissi Esqueceu-se de Mim”, que aborda o Alzheimer de forma acessível às crianças e já foi adaptado para Portugal e trabalhado em escolas e famílias.

Mãe de três filhos, Cláudia tem desenvolvido um trabalho consistente na mediação da leitura e em projetos educativos, incluindo sessões de hora do conto em contextos comunitários e sociais. No TEDxBraga, em novembro de 2025, falou precisamente sobre o papel das histórias na criação de empatia e no diálogo entre gerações. O envolvimento no Páginas em Movimento surge como uma extensão natural desse percurso.

Em Braga, o projeto já colocou livros em circulação nos transportes públicos e começou a estabelecer parcerias com espaços culturais e instituições que funcionam como pontos de recolha e redistribuição. Bibliotecas, escolas, associações e cidadãos individuais podem participar, seja através da doação de livros em bom estado, seja como voluntários.

Segundo o estudo “Hábitos de Leitura em Portugal 2025”, divulgado pela APEL, 76 por cento dos portugueses leram pelo menos um livro no último ano, mas apenas 58 por cento compraram livros, com uma média anual de 5,3 livros por pessoa.

“Os dados ajudam a explicar a relevância de iniciativas que facilitam o acesso à leitura fora dos circuitos comerciais tradicionais. O Páginas em Movimento aposta precisamente numa lógica de economia circular: livros que já existem, muitas vezes parados em estantes, voltam a circular e a ganhar leitores inesperados. Não há controlo sobre quem lê ou devolve, apenas um convite à responsabilidade coletiva”, sublinha a embaixadora do projeto no Norte.

A equipa quer agora reforçar a presença em Braga e alargar a rede a outras cidades do norte do País e não só. “O crescimento depende da adesão da comunidade e da continuidade do gesto simples que sustenta o projeto: encontrar, ler e voltar a deixar o livro em movimento”.

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