Há lugares que nascem de uma pergunta. No caso da Mina-mole, a questão era simples e ao mesmo tempo imensa: “e agora?”. Foi a partir dessa incerteza — comum a tantos artistas no início de percurso — que João Duarte, Rafael Alves e Telma Pereira decidiram criar um coletivo que unisse as suas práticas e desse forma a um espaço de encontro e partilha. O resultado é um novo estúdio de design e artes plásticas em Braga, inaugurado a 27 de setembro, que se apresenta como uma plataforma viva de criação, formação e colaboração.
“Somos três amigos que há muito partilham mudanças e inquietações. Sentimos vontade de criar um coletivo que permitisse explorar identidades individuais e, ao mesmo tempo, promover o crescimento comum”, explicam.
A Mina-mole é formada por três criadores com percursos diferentes, mas complementares. João Duarte, de 27 anos, é licenciado em Design de Comunicação pela FBAUP e tem trabalhado como freelancer em projetos multidisciplinares. É também membro fundador do coletivo wav.in, dedicado à promoção de talentos emergentes e à dinamização da cena cultural do Porto.
Rafael Alves, 26, licenciou-se em Artes Plásticas – Pintura na mesma faculdade. Desde 2017 tem desenvolvido projetos de pintura mural e arte urbana com enfoque social e ambiental, sempre articulando prática artística e envolvimento comunitário.
Já Telma Pereira, também de 26 anos, licenciou-se em Artes Plásticas – Pintura, fez uma pós-graduação em Ilustração e concluiu o mestrado em Som e Imagem – Animação na Universidade Católica Portuguesa. Divide o tempo entre a ilustração, a animação e a cerâmica — em 2024 criou a marca Nabi, que cruza tradição artesanal e estética contemporânea.
O trio encontrou em Braga o cenário ideal para pôr em prática uma ambição antiga: construir um espaço onde o aprender e o criar acontecessem lado a lado. “Sentíamos falta de um lugar onde pudéssemos trabalhar livremente, mas também abrir portas à comunidade. Braga pareceu-nos o sítio certo para isso.”

O nome, mina-mole, nasce de uma imagem simples: a mina do lápis, a grafite. “Identificamo-nos com essa matéria maleável e intuitiva, sempre aberta à experimentação”, dizem. É essa flexibilidade que define o espírito do espaço, pensado como um estúdio multifuncional onde cabem várias linguagens — da pintura à cerâmica, da ilustração ao design gráfico.
Mais do que um local de trabalho, a mina-mole quer afirmar-se como centro independente de partilha e colaboração, aberto à cidade e à sua comunidade criativa. A programação inclui workshops, aulas e projetos educativos, além de uma loja-montra dedicada a peças de artistas e marcas emergentes.
Atualmente, o estúdio tem abertas as inscrições para dois programas regulares. O atelier de artes plásticas (desde 40€) é um espaço de criação livre com orientação — cada participante pode desenvolver o seu próprio projeto artístico, experimentar técnicas e receber acompanhamento individualizado. Já a oficina de artes plásticas para miúdos (desde 25€), destinada a idades entre os 5 e 10 anos, funciona como uma oficina extracurricular. Através de temas mensais, os mais novos exploram materiais e linguagens visuais, estimulando imaginação e autonomia.
As aulas decorrem no espaço mina-mole, no centro de Braga: o atelier às segundas e quartas, das 18h30 às 20h30, e a oficina infantil às terças, das 17h30 às 19 horas. Em breve, o coletivo lançará também workshops temáticos e residências curtas para artistas convidados.
Durante o dia, o espaço serve igualmente como estúdio de trabalho para os três fundadores. “É aqui que idealizamos projetos culturais e comerciais, mas também onde queremos reservar tempo para a exploração individual”, dizem. As portas estão sempre abertas a quem quiser visitar a loja ou simplesmente conversar.
A receptividade ao projeto tem sido muito positiva. “Temos sentido curiosidade e vontade de experimentar. A adesão do público e o apoio da comunidade foram incríveis — sentimos-nos bem recebidos pela cidade e pelos vizinhos”, contam.
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Essa procura confirma a importância de espaços que convidam à criação e ao encontro. “Queremos ser um ponto de encontro, mas não só. Ambicionamos ser um lugar onde se aprende, se mostra, se experimenta e, sobretudo, se cria”, explicam. O objetivo é contribuir para um ecossistema artístico local mais dinâmico, acessível e participativo.
A filosofia da mina-mole é clara: um espaço aberto, sem preconceitos nem agendas rígidas, onde a colaboração nasce de forma natural. “As parcerias surgem de conversas e afinidades. Muitas vezes tudo começa numa ideia informal e cresce à medida que identificamos interesses comuns.”
Nos últimos meses, o coletivo participou em várias iniciativas dentro e fora da cidade. Criaram uma instalação no SOMA Plataforma Cultural, em Braga, apresentada depois no festival Ti Milha, em Pombal. Também pintaram murais na Rua da Restauração e na Rua do Bonfim, no Porto, e estão a finalizar outro na Associação de Assistência de S. Vicente de Paulo da Sé, em Braga.
“Essas colaborações permitem-nos respirar outros contextos e crescer enquanto coletivo e indivíduos”, dizem. É esse movimento constante — entre o dentro e o fora do estúdio — que alimenta o projeto.
Para os próximos meses, há várias novidades na agenda. A mina-mole vai acolher, a 18 de novembro, a exposição itinerante da fanzinoteca Rock n’ Cave, e a 14 de dezembro recebe o projeto Estudo de Meio, uma performance de música ambiente. Além disso, estão a preparar atividades de Natal para crianças e a planear um programa de residências artísticas de curta duração.
“Acima de tudo, queremos construir uma programação viva, relevante e sensível ao contexto que nos rodeia”, resumem.
Num momento em que Braga se afirma cada vez mais como cidade criativa, espaços como a mina-mole mostram o poder de quem decide fazer acontecer. É um lugar para pintar, aprender, conversar — ou simplesmente inspirar-se.

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