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PISO: já pode visitar o novo laboratório criativo da cidade

Abriu em outubro e junta concertos, oficinas, exposições, estúdios e um centro de criação comunitária aberto a todos.

Num fim de tarde qualquer, alguém sobe as escadas discretas da Rua do Cabido sem saber exatamente o que vai encontrar. Lá dentro há cadeiras dispostas em círculo, cabos ligados a sintetizadores, folhas de papel ainda húmidas de tinta e muitas, mesmo muitas conversas sobre tudo. Não existe palco nem distância entre quem cria e quem assiste. É assim o cenário com que se depara quem entra no PISO, o novo espaço cultural que abriu em Braga em outubro de 2025.

O projeto resulta do percurso de duas estruturas independentes: a Plataforma do Pandemónio e a Astrolábio Itinerante. Nos últimos anos, ambas desenvolveram atividades artísticas, educativas e comunitárias em articulação com diferentes entidades da cidade, num trabalho que criou redes e novos públicos, mas também evidenciou a limitação da ausência de um espaço próprio.

“A vontade de ter um espaço aberto ao público é tão antiga quanto a própria Plataforma do Pandemónio”, explica Marta Moreira, 30 anos, uma das fundadoras. Durante cinco anos, a atividade aconteceu em colaboração com outras estruturas, o que exigia adaptações permanentes. Esse modelo permitiu crescer, mas começou a condicionar sobretudo os projetos continuados do serviço educativo, que precisavam de estabilidade, autonomia e tempo.

Guilherme Maranhão, 33 anos, artista e também responsável pelo projeto, sentia obstáculos semelhantes no campo da criação coletiva. “Muitas das nossas ideias de processos artísticos coletivos esbarravam na ausência de um local permanentemente dedicado a isso”, recorda. Os materiais tinham de caber em caixas transportáveis, o que limitava a experimentação e a partilha. O PISO surge assim como resposta prática a uma necessidade artística e comunitária que se foi tornando evidente.

A união entre a Plataforma do Pandemónio e a Astrolábio Itinerante deu forma ao espaço atual. Quando entraram no novo local, não começaram tudo do zero, até porque traziam consigo uma comunidade ativa com dezenas de associados e parcerias consolidadas. Foi esse capital coletivo que permitiu transformar rapidamente o espaço num lugar vivo e animado.

Mais do que um edifício, o PISO é ponto de encontro entre artistas e cidadãos. A agenda mensal reserva espaço para acolher iniciativas externas, numa lógica de partilha e colaboração. “Não abrimos o PISO para mercantilizar aquilo que fazemos, mas para dar resposta a necessidades que sabemos não serem só nossas”, sublinha Marta Moreira. Desde janeiro, esses acolhimentos tornaram-se regulares e ampliaram a rede de relações do projeto.

 
 
 
 
 
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No interior, diferentes processos criativos coexistem sem hierarquias rígidas. E por lá têm lugar ensaios, oficinas, conversas e exposições. “Se o PISO fosse apenas um espaço físico, seria um espaço bagunçado. Na realidade, desenvolvem-se aqui diversos processos individuais e coletivos que se observam e interagem”, descreve Guilherme Maranhão. Ali, todos ensinam e todos aprendem.

Essa filosofia atravessa a programação. Um dos eixos principais é o LUSCOFUSCO, ciclo regular de concertos intimistas dedicado a artistas emergentes e à criação contemporânea. A proposta passa por trazer a fruição cultural para o meio da semana, quebrando a lógica de que a cultura pertence apenas ao fim de semana. A entrada tem tido valores acessíveis – por exemplo, sessões recentes custaram 4€ com uma bebida incluída – para garantir proximidade entre público e artistas.

Os workshops mensais seguem a mesma lógica de acesso. Cada sessão convida os participantes a criar um objeto artístico a partir de diferentes linguagens, muitas vezes com materiais simples ou reciclados. A 28 de fevereiro, por exemplo, está previsto um workshop de produção artesanal de papel, orientado por Ana Paula Silvestre, custa 15€ com materiais incluídos e permite que cada participante leve consigo as folhas produzidas.

Outro núcleo importante são os clubes dedicados à experimentação tecnológica e sonora. O Clube de Sintetizadores Modulares promove encontros abertos para explorar música eletrónica em tempo real. Já o Clube de Computação Retrô propõe contacto direto com computadores antigos, refletindo sobre outras formas de pensar a tecnologia. Em ambos os casos, não é exigido conhecimento prévio, apenas curiosidade.

A dimensão expositiva ganhou força com o início de um ciclo trimestral. A mostra atual, “Cola, Papel e Memória”, de Joana Carrapatoso, permanece patente até abril e cruza fragmentos do quotidiano com elementos oníricos, explorando temas como liberdade, memória e reinvenção. Para a equipa, criar espaço para artes visuais responde a uma carência evidente na cidade. As exposições acolhem artistas convidados e projetos sem espaço próprio, desde que exista afinidade conceptual com o PISO.

O espaço integra ainda um modelo de co-working artístico. Existe uma sala com quatro postos de trabalho reserváveis por mês, semana ou dia, que permite aos artistas desenvolver projetos num ambiente partilhado. Em paralelo, o segmento Porta Aberta recebe propostas externas através de candidatura online, analisadas caso a caso.

Entre os projetos estruturantes destaca-se o NÉBULA – Estúdio de Experimentação Artística, parte do serviço educativo da Plataforma do Pandemónio. Funciona como centro de criação comunitária durante dez meses e inclui núcleos de coro comunitário, fala performativa e artes visuais. Os laboratórios decorrem em sessões quinzenais e têm custo de 15€ por trimestre ou 40€ por ano, por laboratório, com descontos para associados. A participação está aberta a pessoas com mais de 15 anos.

Desde a abertura, o público tem crescido de forma gradual. Aos participantes já ligados à cultura juntaram-se estudantes, curiosos e turistas que passam pela zona da Sé. “Há sempre alguém novo que chega e traz mais alguém”, conta Marta Moreira

Carregue na galeria para conhecer o novo espaço cultural de Braga.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. do Cabido, 7, 1 andar
    4700-417 Braga
  • HORÁRIO
  • Terça-feira a sábado das 10h às 19h

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