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Soraia Oliveira, a artista que decidiu colorir Braga é a nossa Personalidade do Ano

Transformou ringues, escolas e ruas em telas vivas, criando diálogo e devolvendo cor à cidade — e acabou por marcar o ano.

Há quem descubra cedo que o seu caminho passa pela arte — e quem nunca mais consiga largá-lo. No caso de Soraia Oliveira, tudo começou aos 11 anos, quando um livro sobre um circo na lua lhe revelou que desenhar podia ser uma forma de contar histórias. Anos depois, essa mesma vontade de comunicar através da imagem levou-a a transformar muros, ringues desportivos e espaços educativos de Braga em pontos de encontro entre cor, pensamento crítico e comunidade. Foi essa presença constante, sensível e comprometida com a cidade que levou a redação da NiB a distingui-la como Personalidade do Ano em Braga.

“Ser distinguida como Personalidade do Ano em Braga, a cidade que escolhi para construir a minha vida, é como um abraço quentinho”, confessa a artista. Mais do que um prémio isolado, vê este reconhecimento como a validação de um percurso: “Não sinto isto como uma distinção ligada a um momento específico, mas como um reconhecimento do caminho que tenho vindo a fazer e da forma como a arte pode criar diálogo, pertença e afeto no dia a dia da cidade.”

A categoria Personalidade do Ano é uma das mais simbólicas dos Prémios NiB. Ao contrário de outras distinções votadas pelos leitores, este prémio é atribuído exclusivamente pela redação, com base no impacto, relevância e coerência do percurso de uma figura que, ao longo do ano, tenha marcado a vida cultural e social do concelho. Desde a criação dos prémios, o objetivo tem sido o mesmo: reconhecer quem faz a diferença de forma consistente, muitas vezes longe dos grandes palcos, mas profundamente ligado ao território.

Em 2025, esse impacto fez-se ver — literalmente — nas ruas de Braga. Licenciada em Design Gráfico e mestre em Ilustração e Animação pelo IPCA, Soraia nasceu na Maia, mas foi em Braga que encontrou espaço para crescer artisticamente e criar raízes. Ao longo da última década, trabalhou com a comunidade, escolas e instituições locais, desenvolvendo projetos que cruzam arte urbana, ilustração editorial e intervenção social.

Um dos trabalhos mais visíveis deste ano foi a intervenção no ringue desportivo de Gandra, em Ferreiros, no âmbito do concurso municipal “A(r)riscar”. Inspirada no ponto 10 da Agenda 2030 das Nações Unidas — reduzir desigualdades —, a artista criou um mural que transforma o campo num espaço simbólico, onde uma personagem escolhe entre diferentes bolas, representando as oportunidades a que todos deveriam ter acesso.

soraia
O grande projeto deste ano.

“O meu trabalho parte muitas vezes de metáforas simples para falar de temas complexos”, explica. “Acredito que a arte pode lançar perguntas e abrir conversas, sobretudo em espaços do quotidiano.” Para Soraia, ocupar o espaço público é um gesto político, ainda que subtil: “Vejo a arte como um ato de resistência suave, mas firme — um convite a olhar, sentir e imaginar outras formas de viver em conjunto.”

O processo de criação do mural demorou cerca de cinco semanas, entre conceção e execução, sendo três semanas e meia dedicadas à pintura. O maior desafio foi técnico: trabalhar numa escala muito maior do que a habitual. “Quando estamos tão perto da ‘tela’, é difícil perceber proporções. Usei grelhas e estratégias de escala, e tudo acabou por se alinhar.” A experiência foi também profundamente pessoal, com o apoio do namorado e do sogro durante o processo — um detalhe que reforça a dimensão humana do seu trabalho.

Mas 2025 não se resumiu a um único projeto. Ao longo do ano, Soraia esteve presente em salas de aula, acompanhou jovens nos primeiros passos artísticos e desenvolveu intervenções noutros pontos da cidade, como o Mercado Municipal de Braga e a Rua Ferraz, junto à entrada da AGERE. “Este ano trouxe-me uma maior consciência do impacto do meu trabalho”, admite. “Houve projetos que me tiraram da zona de conforto e me obrigaram a crescer, não só tecnicamente, mas também emocionalmente.”

A sua linguagem visual é marcada por paletas vibrantes, padrões dinâmicos e personagens expressivas, que contrastam com a neutralidade cromática dominante no espaço urbano. “Uma das minhas batalhas como artista é encher o mundo de cor e combater a ideia de que tudo tem de ser bege ou cinzento”, afirma. Para Soraia, a cor é mais do que estética: é estímulo, memória e possibilidade.

Além da arte urbana, mantém uma forte ligação ao universo editorial. O livro “Vai subir ou Vai descer” foi um dos projetos que mais a marcou, por a obrigar a desconstruir ideias pré-concebidas sobre narrativa visual. Atualmente, prepara o regresso aos livros, com um novo título previsto para o final do ano, e já iniciou a pré-produção de outro projeto que verá a luz do dia em 2026.

E é precisamente para o ano próximo que aponta com expectativa, — mas também com vontade de abrandar. “Quero desacelerar para aprofundar”, revela. Nos planos estão novos formatos mais experimentais, o cruzamento da arte urbana com instalação e objeto, colaborações interdisciplinares e projetos participativos. Há também o desejo de levar o seu trabalho para outros contextos geográficos e de desenvolver narrativas que vão além do mural e do livro.

Num tempo acelerado e muitas vezes indiferente, o trabalho de Soraia Oliveira lembra que a cidade também se constrói com sensibilidade, escuta e cor. Pela forma como transforma espaços comuns em experiências significativas e pela relação contínua que estabelece com Braga e os seus habitantes, a redação da NiB escolhe-a, de forma inequívoca, como Personalidade do Ano.

Um reconhecimento que não fecha um ciclo, nas confirma que tem muito caminho pela frente.

Carregue na galeria para conhecer outros trabalhos da artista.

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