Muitas vezes, os espaços que vemos nas cidades parecem apenas concreto e funcionalidade, mas para Soraia Oliveira, cada superfície é uma tela em potencial. Nascida na Maia, licenciada em Design Gráfico e Mestre em Ilustração e Animação pelo Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, Soraia tem 33 anos e uma paixão de longa data pela ilustração que começou aos 11 anos, quando um livro sobre um circo na lua a inspirou a contar histórias através de desenhos. Desde então, seguiu o seu instinto, transformando o amor pela criação em uma carreira profissional, sempre procurando preencher o mundo com cor e alegria.
Mudando-se para Braga, Soraia encontrou na cidade uma comunidade aberta a projetos artísticos, tendo trabalhado ao longo da última década em intervenções urbanas. O seu trabalho mais recente no contexto do concurso “A(r)riscar” levou-a a intervir no ringue desportivo de Gandra, em Ferreiros, criando um mural que não é apenas decorativo, mas também simbólico. Inspirada pelo ponto 10 da Agenda 2030 da ONU — reduzir desigualdades —, Soraia transformou o espaço num campo vibrante onde uma personagem tem diferentes bolas à disposição, representando oportunidades diversas que todos deveriam poder escolher.
O processo de execução do mural demorou cerca de cinco semanas, incluindo três semanas e meia de pintura ativa. “A maior dificuldade foi desenhar numa escala tão grande, mas com grelhas e estratégias consegui manter as proporções,” conta Soraia, destacando a colaboração do namorado e do sogro, tornando o projeto também uma experiência familiar. A paleta vibrante e os padrões dinâmicos refletem a multiculturalidade e a energia do desporto, mas também o desejo da artista de estimular a criatividade de quem utiliza o espaço.
Soraia vê a intervenção não apenas como arte urbana, mas como um convite à reflexão e à inclusão social. “Uma das minhas batalhas como artista é encher o mundo de cor e combater a ideia de que tudo deve ser bege e cinzento”, revela. O mural no ringue é assim um ponto de encontro entre cor, movimento e mensagem social, mostrando como a arte pode transformar espaços do dia a dia em experiências inspiradoras.
Leia a entrevista completa que Soraia deu à NiB.
Pode falar-nos um pouco sobre si?
Chamo-me Soraia Oliveira e sou uma ilustradora e designer gráfica. Sou da Maia e atualmente vivo em Braga, e estou a adorar a experiência nesta cidade. A minha paixão pela ilustração começou aos 11 anos, numa aula de Português onde conheci um livro sobre um circo na lua. Foi nesse momento que descobri que queria contar histórias através de desenhos. O meu maior propósito como artista é preencher o mundo com cor e alegria através de uma das coisas que mais gosto fazer: ilustrar.
Quando e como decidiu seguir o caminho das artes visuais profissionalmente?
Sempre gostei de desenhar, na escola os projectos de educação visual sempre me entusiasmaram. Quando era pequnina gostava de cortar as modelos dos catálogos da minha mãe e transformava-as em bonecas para brincar. Por isso acho que fui seguindo o meu instinto sem colocar muita pressão. Um passinho de cada vez e a a vida encarregou-se de me levar para onde eu precisava de ir.
Que temas ou elementos mais gosta de ilustrar e pintar?
Acho que adoro desafios e estou sempre a procura de ilustrar temas diferentes, isso é uma das coisas que mais gosto na minha profissão porque tenho de investigar muito sobre vários assuntos para os poder representar. Ultimamente tenho gostado muito de fazer retratos porque tenho a oportunidade de conhecer muitas histórias diferentes, um dia estou a ilustrar um cantor de ópera, no outro estou a desenhar um retrato feliz de um amigo patudo.

Há algum artista, movimento ou referência que tenha influenciado o seu percurso?
Tenho várias referências, adoro inspirar-me na beleza do quotidiano e nas tradições. Há algo de muito mágico no passar do tempo e de como tudo na vida tem uma influência nas escolhas que fazes.
Já tinha trabalhado em Braga antes? Este é o seu primeiro mural na cidade?
Já trabalhei em vários projectos que envolvem a cidade e a comunidade de Braga. Recentemente trabalhei com o Clube de Artes da escola D. Maria, através do projecto Fenda Academy, na recuperação e pintura de cacifos escolares. Este campo é a minha terceira intervenção na cidade, as outras duas podem ser vistas no mercado municipal e na rua ferraz, na entrada para a Agere.
Já tinha colaborado anteriormente com a Câmara Municipal de Braga ou com projetos semelhantes ao “A(r)riscar”?
Sim, desde que me mudei para Braga no fim do secundário tive a oportunidade de trabalhar regularmente com a Câmara, participando em projectos para a comunidade e incentivando os bracarenses a experimentar e incluir a arte no seu dia-a-dia.
Como surgiu a oportunidade de participar no concurso “A(r)riscar”?
Encontrei o concurso online e, como já queira fazer algo assim há algum tempo, decidi arriscar e acabou por correr super bem.
Como decorreu o processo de seleção para criar este mural?
Depois de submeter a proposta, fiquei à espera dos resultados, penso que cerca de um mês. No dia que recebi o email foi muito fixe porque fiquei a saber que para além de mim, o meu namorado também tinha ganho, só que noutro ringue.
Que conceito a inspirou a criar este trabalho específico?
O mural tem como foco principal ilustrar o ponto número 10 da Agenda para 2030, Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: reduzir as desigualdades. Acredito que todos devemos ter as mesmas oportunidades para crescer como indivíduos. Vemos diariamente casos de pessoas que não conseguiram alcançar os seus objectivos por vários fatores externos a eles próprios. Falta de acesso a oportunidades educativas, profissionais, económicas, limitações com origem em fatores raciais, de género ou deficiência. Quantos artistas não conhecemos ao longo da história por causa destes fatores. Quantos médicos, cientistas, engenheiros, políticos, entre outros, poderiam ter contribuído na história se tivessem tido a oportunidade de alcançar os seus objetivos e desejos. Assim, através de uma metáfora desportiva, por se tratar de um campo, a ilustração apresenta uma personagem que tem diferentes bolas à sua disposição para escolher a que quiser. Representam as diferentes oportunidades que todos devemos ter acesso, criando assim uma analogia directa para o tema apresentado. A ilustração pretende abrir um diálogo sobre questões de desigualdade que ainda estão presentes na sociedade atual para que juntos, como comunidade, possamos encontrar soluções que nos ajudem a ultrapassar estas questões. É também um lembrete para que mais ninguém fique de fora por falta de oportunidades.
E quanto à escolha das cores?
Optei por uma paleta vibrante e dinâmica para assim reforçar a ideia de energia e movimento tão presente nas atividades desportivas. As diferentes cores, e padrões, têm como objectivo reforçar a multicultaralidade que vivemos atualmente e como, todos juntos, podemos viver em harmonia e criar uma cidade mais colorida.
Quanto tempo demorou, desde a conceção até à finalização da obra?
A ilustração para o mural foi desenvolvida o ano passado (2024) e aplicada agora em 2025. Todo o processo, desde o desenvolvimento do conceito, esboços, ilustração final e pintura do campo deve ter demorado cerca de cinco semanas, sendo que três semanas e meia foram ativamente a pintura do campo.
Durante a execução, qual foi o maior desafio técnico ou logístico que enfrentou?
A maior dificuldade foi desenhar numa escala tão grande quando se está tão perto da “tela”, de resto, foi tudo muito tranquilo. Não conseguia ver as proporções do desenho de longe, mas através de uma grelha e outras estratégias consegui escalar o desenho. Utilizei vários materiais para mimetizar coisas que uso no dia a dia no meu trabalho e tudo se alinhou. Quando estou a pintar um mural, fico tão focada que a minha vida parece ser só aquilo. É uma experiência muito intensa. Penso que também o que me marcou muito foi a oportunidade de pintar uma ilustração da minha autoria numa escala tão grande e poder contar com o apoio do meu namorado ao longo do processo. O meu sogro também ajudou muito. Foi uma boa experiência em família, vai ficar na memória.

O “A(r)riscar” procura valorizar o espaço público e incentivar a prática desportiva. Como procurou alinhar o seu trabalho com este objetivo, mantendo a sua identidade artística?
Como ilustradora tento sempre comunicar uma mensagem que reforce o conceito do projecto através da minha identidade. Ao longo dos anos, há coisas que ficam de um projecto para outro e é impossível não deixarmos o cunho pessoal nas peças que desenvolvemos.
Que impacto poderá ter esta obra na comunidade, especialmente nos jovens e praticantes de desporto que utilizam o polidesportivo?
Uma das minhas batalhas como artista é encher o mundo de cor e combater esta ideia de que tudo deve ser bege e cinzento para não nos comprometermos. A natureza está cheia de cor e a natureza é sábia. Então, um dos principais objetivos é colorir este espaço da escola, onde os miúdos podem ser estimulados criativamente através da paleta de cores e das diferentes formas e texturas. Numa segunda etapa, gostava que o conceito fosse explicado aos utilizadores do espaço e assim poder iniciar um diálogo dentro da comunidade sobre muitas desigualdades que vemos no nosso dia-a-dia.
Dos seus trabalhos anteriores, destaca alguma que tenha marcado a sua carreira?
Esta pergunta faz-me pensar. Acho que foi o livro ” Vai subir ou Vai Descer”, porque me obrigou a desconstruir algumas ideias de como posso ilustrar uma história e o que posso acrescentar como ilustradora. Outra projecto foi o mural do Mercado Municipal de Braga, o meu primeiro projecto de grande dimensão que me ajudou a perceber que consigo fazer bem mais do que penso.
Tem outros projetos em andamento ou previstos para breve?
Tenho várias ideias a fervilhar. Estou a preparar muitas novidades e de volta aos livros — um deles deve sair já no final do ano, cheio de ilustrações desafiantes e com muitos detalhes. Em outubro arranca a pré-produção de outro projeto muito especial que só verá a luz do dia em 2026. E, paralelamente, ando a cozinhar uma coisa nova em colaboração com o Hélder (o namorado) ainda é cedo para revelar, mas promete ser um espaço criativo cheio de possibilidades.
Há algum espaço ou cidade onde sonhe criar um mural?
Adorava pintar um teto, podia ser um desafio fixe e transformar a atmosfera de uma sala.
Que mensagem gostaria de deixar a jovens artistas que queiram fazer este tipo de projetos?
Procurem oportunidades como concursos e não tenham medo de arriscar. Podem sempre falar com colegas da área para pedir conselhos. O mais importante é não parar e façam o que vos faz sentido, sem medo.

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