Nem todas as bandas começam com um nome. Algumas nascem com um símbolo — neste caso, um “W” estilizado que viria a tornar-se o logótipo dos Wildchains. Um desenho simples, mas carregado de identidade, que surgiu numa fase em que o projeto era mais pessoal para um dos membros do grupo. Foi a propósito do lançamento de “Taxidermy”, o single de avanço do álbum de estreia, que a New in Braga falou com a banda. E é também aí que começa esta história.
Só depois veio o nome — e a consciência de que aquilo já não pertencia a uma só pessoa, mas a um coletivo. “À medida que outras pessoas se juntaram e começaram a acrescentar verdadeiramente às músicas, deixou de fazer sentido ser algo pessoal”, explica Sérgio “Wizro” Oliveira, fundador do grupo.
O nome acabou por nascer a partir desse símbolo. “Chains” representa a ligação entre os membros e as influências. “Wild” traduz a energia crua do som. “Há uma dualidade interessante: ligação e liberdade. Controlo e caos. É isso que somos.”
A banda nasceu em Braga, em 2021, a partir de um impulso criativo profundamente pessoal. Wizro começou por transformar experiências reais em música, mas rapidamente o projeto cresceu. Hoje, os Wildchains são formados por Wizro (guitarra, voz, composição), L. Filipe Nobre (guitarra), João Louro (baixo) e Artur “Tuito” Loureiro (bateria). Uma formação que reflete o presente da banda — e a sua ambição futura.
Mais do que uma junção de músicos, o grupo define-se como um ponto de convergência. “São pessoas que veem isto da mesma forma — como algo que tem de levar a sua missão até ao fim”, diz João Louro.
Essa missão tem passado, sobretudo, pelos palcos. Em pouco mais de três anos, a banda já soma mais de 50 concertos em todo o país, incluindo salas como o Fórum Braga, Multiusos de Guimarães e Hard Club, no Porto. Foi precisamente neste último que consolidaram o seu estatuto.
No Axisrock Fest, em novembro de 2025, os Wildchains foram apontados como o momento alto da noite. A atuação intensa, com sala cheia e público envolvido do início ao fim, levou muitos espectadores a classificarem o concerto como “um dos melhores espetáculos de rock do ano no Hard Club”. Mais do que um elogio pontual, foi a confirmação de que a banda começa a ser vista como uma das forças da nova geração do rock português.
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Esse crescimento acontece sem apoios externos. “Sempre fomos uma banda independente — sem editoras, sem promotoras — mas com uma vontade enorme de fazer parte de novos desafios”, partilharam os músicos, logo após o concerto.
O percurso, no entanto, não foi linear. Houve fases menos visíveis, mas fundamentais. “Houve momentos de construção. Tempo investido a aprofundar o som, a identidade e a direção da banda”, explica Louro. Esse trabalho começa agora a ganhar forma num novo ciclo criativo, mais conceptual e ambicioso.
O ponto de viragem chama-se “Taxidermy”. Lançado a 13 de março, o single é mais do que uma nova música — é a porta de entrada para o universo do primeiro álbum, “The Great Fado”.
A ideia surgiu a partir de uma imagem simples: uma casa em ruínas. “Alguém passou uma vida a construir aquilo, a dar-lhe significado… e hoje não sobra nada que seja realmente seu”, explica Louro. A partir daí, construiu-se o conceito. A música fala da tentativa humana de preservar o que é inevitavelmente transitório — identidades, conquistas, memórias.
“Passamos a vida a tentar eternizar momentos que, no fim, existem apenas como ecos”, acrescenta o baixista.
Essa reflexão traduz-se também na própria sonoridade. A música começa com uma aparente calma, guiada por piano e melodias simples, mas evolui para uma intensidade crescente, quase caótica. “É a ilusão de controlo a desfazer-se”, resume Wizro.
O videoclipe reforça essa ideia. Foi gravado na Casa da Botica, em Amares, um espaço marcado pelo tempo e pela memória. “Há ali uma sensação de preservação, mas também de desgaste — de algo que já teve vida e que agora existe de outra forma”, explica a banda.
Tudo isto faz parte de um universo maior. “The Great Fado”, o álbum de estreia, nasce dessa necessidade de dar contexto às músicas. Para os Wildchains, cada faixa é um capítulo de uma narrativa mais ampla.

“O ‘fado’ aqui não é um género musical. É destino. É inevitabilidade. É aquilo que nos molda, mesmo quando não queremos”, explica Wizro.
O disco atravessa temas como perda, memória, morte e transformação — sempre a partir de experiências reais. “As faixas falam de tragédias pessoais, de coisas que vivemos. Tudo isso acabou por se tornar parte de quem somos”, acrescenta.
Visualmente, essa identidade também se constrói com símbolos fortes. Os azulejos surgem como representação da memória — algo feito para durar, mas que se desgasta com o tempo. O veado, figura recorrente, funciona como metáfora dessa mesma ideia, ligado ao conceito de taxidermia e transformação.
O álbum ainda não tem preço divulgado, mas já tem uma janela: deverá chegar no verão de 2026. Para a banda, isso representa mais do que um lançamento. É o culminar de um percurso. “Tivemos muitos percalços que nos obrigaram a alterar a trajetória, mas nunca o objetivo”, diz Louro. “O álbum sempre foi isso — um objetivo.”
Se há uma mensagem que querem deixar, é simples. “Que não estão sozinhos. Que é possível transformar essa escuridão em algo positivo.”
E, talvez mais importante, há também uma ambição clara: devolver o rock ao centro. “Queremos que volte a ter protagonismo. Que volte a estar nos grandes cartazes, em Portugal e lá fora.”

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