Aos 18 anos, Eduardo Pinto deixou Braga para ir estudar para Madrid. A rotina acelerada entre trabalho e estudos desorganizou-lhe os hábitos. Em dois anos, entre pouco sono e alimentação desregulada, passou de pouco mais de 70 quilos para mais de 100. O impacto foi também psicológico. “O corpo não aguentou, mas acima de tudo foi a cabeça que começou a falhar. Tornei-me hipocondríaco, vivia constantemente em alerta”, conta o bracarense de 27 anos. Esse momento de rutura acabaria por desencadear uma mudança profunda e dar origem a um running club, o BamoBora.
A primeira corrida decorreu no sábado, 24 de janeiro, e marcou o arranque oficial do BB Club Braga, uma nova comunidade de corrida sem metas competitivas. Nos últimos anos, a corrida ultrapassou o desporto individual e passou a reunir comunidades com objetivos comuns ligados à rotina e saúde. Foi nesse contexto que nasceu o projeto, pela mão do jovem minhoto que transformou um percurso pessoal num conceito coletivo. “Sempre fui ativo socialmente e tinha aquela vontade quase ingénua de fazer algo com impacto real”, explica.
Aos 21 anos, com mais de 30 quilos de peso a mais, começou a correr de forma simples e progressiva. “Voltei a mexer-me, a correr devagar, a dormir melhor, a comer melhor. Passo a passo. Senti que podia existir uma melhor versão de mim próprio.”
O desporto fez sempre parte da sua vida. Praticou atletismo, futebol e natação, participou em provas escolares e chegou a receber um troféu das mãos de Rosa Mota. Com o tempo, essa ligação foi-se perdendo. Quando voltou à corrida, em 2023, procurava apenas recuperar bem-estar. “Já não vinha para ganhar provas, vinha para conseguir viver melhor”, resume.
O momento decisivo aconteceu quando passou a estabelecer objetivos e conseguiu finalmente regressar ao peso original, 30 quilos a menos. “Quando comecei a definir objetivos e a inscrever-me em provas, deixou de ser opcional.” Com o tempo, começou a chamar amigos para treinar. “Criou-se uma responsabilidade coletiva muito forte. Treinávamos juntos, partilhávamos tudo. Tornou-se compromisso, união e ritual.”
Foi nesse ambiente que nasceu a BamoBora. Eduardo começou a desafiar-se em várias modalidades e treinava duas vezes por dia, com o objetivo de fazer um ironman. Ao mesmo tempo, identificava um vazio no universo da corrida urbana: “Estava demasiado focada na performance e pouco na identidade.”
Mais do que estética, o projeto pretende devolver à corrida o seu lado coletivo e emocional. “Criar contextos onde correr não é um ato solitário nem competitivo. Ninguém está ali para provar nada. Todos estamos no objetivo comum de ser melhores amanhã.” A prática é simples: “Correr juntos, conversar, rir, partilhar histórias. Criar memória.”
É dessa lógica que nasce o BB Club, a base da BamoBora. “É para quem quer ser melhor do que ontem, mas sem pressão.” A prioridade não está nos tempos nem nas métricas. “A performance já tem muitos palcos. A comunidade, não.” Para Eduardo Pinto, sentir-se acolhido é o primeiro passo para a consistência.
Braga foi a cidade escolhida para arrancar o movimento. “Braga é casa. Foi aqui que cresci e que me formei enquanto pessoa.” Há também uma ligação afetiva ao nome. “Na corrida diz-se muito ‘bora’. Em Braga dizemos ‘bambora’. Essa troca faz parte da nossa identidade minhota.”
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O BB Club Braga arrancou oficialmente no passado sábado e prevê encontros semanais, com corridas aos sábados, acessíveis a todos os níveis. Existem vários ritmos, com o objetivo de promover a evolução gradual. Após cada corrida, há sempre um momento social. “A lógica é simples: aparecer, correr e ficar. É aí que a comunidade se constrói.”
O modelo foi pensado para ser replicado noutras cidades, mantendo a mesma identidade. Como Eduardo Pinto não consegue estar presente em todos os locais, cada clube terá embaixadores locais. São eles que dinamizam os treinos, acompanham os participantes e garantem o ambiente inclusivo alinhado com os valores da BamoBora.
A embaixadora do BB Club Braga é Mariana Miguela, maratonista com ligação à comunidade local. “O papel não é só liderar treinos, mas garantir que quem chega sozinho se sente integrado.”
A participação nas corridas do BB Club Braga é gratuita e aberta a todos. O espaço parceiro, o SAGA Cookies, é o ponto de encontro no final dos treinos e prolonga o convívio. “Não é um patrocinador tradicional. É um co-host”, sublinha Eduardo Pinto. “É onde as pessoas ficam, conversam e criam ligações.” Em cada cidade, estes espaços podem criar menus específicos com preços simbólicos, pensados para os participantes. “Sem estes locais, o conceito ficaria incompleto.”
Para o futuro, Eduardo Pinto assume a ambição de fazer nascer BB Clubs em Lisboa e Madrid. “Quero ser a pessoa que ajudou a mudar a indústria do fitness”, confessa sobre a vontade de fazer crescer o conceito. “Sou sonhador, assumo. Mas acredito que juntos conseguimos levar a marca mais longe.”

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