fit

Esta app bracarense usa IA para corrigir os seus exercícios enquanto treina

A startup de Braga combina Inteligência Artificial, análise de vídeo e blockchain para acompanhar atletas e ajudar a descobrir novos talentos desportivos.

O próximo talento do futebol pode estar a treinar sozinho numa aldeia africana, numa pequena cidade europeia ou num bairro da América Latina, longe dos clubes, olheiros e competições capazes de lhe dar visibilidade. Uma startup de Braga quer mudar esse cenário através de uma plataforma que permite avaliar atletas à distância. Para mostrar o que valem, precisam apenas de um telemóvel com câmara, dois metros de espaço e menos de um minuto para executar um desafio.

A dotmoovs, fundada em Braga em dezembro de 2024, está a desenvolver uma plataforma que usa Inteligência Artificial (IA), análise de vídeo e blockchain para avaliar movimentos, comparar resultados e ajudar a descobrir talento desportivo em qualquer parte do mundo. O projeto representa um investimento de 1,3 milhões de euros e recebeu, a 16 de julho, um apoio de 922 mil euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Esta história começa com Francisco Varela, empresário bracarense formado em Gestão e Marketing. Passou a vida entre Braga e Guimarães e construiu o percurso profissional através da criação de vários negócios, entre os quais a cadeia de cervejarias Londrina e a plataforma tecnológica Exeedme. O desporto e a tecnologia estiveram sempre entre os seus principais interesses, embora tenha esperado que a Inteligência Artificial atingisse a maturidade necessária para avançar com uma empresa capaz de juntar os dois universos.

A oportunidade começou a surgir em 2021. A ideia inicial parecia simples, mas colocava um desafio tecnológico complexo: permitir que duas pessoas em lados opostos do mundo competissem numa prova desportiva, com a IA no papel de árbitro imparcial para decidir quem apresentava o melhor desempenho.

Francisco convidou Salomé Azevedo e Pedro Rente Lourenço para transformar o conceito numa empresa. Salomé é engenheira biomédica, mestre em Biomecânica e doutorada na área das intervenções digitais em saúde. Pedro, também engenheiro biomédico, especializou-se em machine learning e integrou a equipa fundadora até 2023, quando seguiu para um novo projeto.

Em menos de seis meses, o grupo contratou os primeiros trabalhadores e lançou uma versão da aplicação móvel já equipada com visão computacional e blockchain. Braga tornou-se a base da empresa, não apenas pela ligação de Francisco à região, mas também pela rede de contactos e pelos recursos que encontrou na cidade.

O fundador da app.

A Universidade do Minho acompanha o projeto desde os primeiros passos. Alunos desenvolveram teses de mestrado em colaboração com a dotmoovs e investigadores da instituição têm participado nos testes e na validação da precisão dos modelos de IA aplicados à análise biomecânica. A empresa trabalha ainda com o Value for Health CoLAB, a Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade de Évora e o BIRD Lab da UMinho.

“Criar uma empresa numa área tão recente trouxe dificuldades”, admite o CEO de 34 anos. “Uma das principais foi encontrar e manter profissionais especializados em visão computacional e blockchain. A startup também enfrentou resistência inicial por parte de clubes e ginásios que não compreendiam como poderiam integrar a tecnologia no trabalho diário”, acrescenta.

A resposta passou pela criação de equipas internas dedicadas à investigação e pela realização de projetos-piloto com profissionais do desporto. Treinadores, fisiatras, fisioterapeutas, preparadores físicos, atletas de alta competição e investigadores reúnem-se regularmente com a dotmoovs para testar critérios, sugerir melhorias e validar as avaliações.

A nova plataforma resulta de três anos de investigação e desenvolvimento no âmbito da Agenda Mobilizadora Blockchain.PT. O projeto, denominado “PPS 12 — Blockchain-based Social Network for Athletes”, pretende resolver três problemas: a dificuldade que muitos atletas têm em mostrar as suas capacidades, a subjetividade de algumas avaliações e a falta de mecanismos que permitam comparar desempenhos com base no mérito.

Na prática, o sistema divide-se em duas soluções complementares. O atleta usa uma aplicação móvel onde pode aceder a planos de treino, realizar exercícios e participar em desafios. Os profissionais entram numa plataforma online para acompanhar os atletas, definir planos personalizados, consultar relatórios e ajustar os treinos de acordo com as informações recolhidas.

O funcionamento dispensa equipamentos especiais. O utilizador escolhe o exercício, apoia o telemóvel a cerca de dois metros de distância e grava-se. A IA identifica diferentes pontos do corpo, analisa o movimento e apresenta um relatório em menos de um minuto. “Se as costas não estão direitas ou os braços não acompanham o movimento corretamente, o utilizador recebe correções instantâneas. É como ter um personal trainer virtual ao lado”, acrescenta Francisco.

Num agachamento, por exemplo, avalia a profundidade, o alinhamento dos joelhos, a inclinação do tronco, a simetria entre os dois lados e a permanência dos calcanhares no chão. Desta forma, o atleta recebe dados sobre a qualidade técnica de cada repetição, em vez de conhecer apenas a quantidade realizada.

Num exercício de domínio de bola, o sistema analisa a consistência e o ritmo dos toques, o equilíbrio entre os pés, a altura da bola e a duração das sequências sem falhas. A intenção é traduzir em números simples aspetos que normalmente exigiriam a observação presencial de um treinador.

“A plataforma já tem sistemas de arbitragem automática para freestyle football, dança e boxe. A primeira modalidade foi escolhida devido ao apoio inicial de embaixadores como Luís Figo e Ricardo Quaresma, que ajudaram a divulgar e testar o protótipo. Os desafios avaliam o controlo de bola com os pés, a cabeça e os joelhos, bem como o equilíbrio entre membros”, admite o responsável.

dotmoovs

Na dança, os participantes reproduzem coreografias de 30 segundos criadas por profissionais. A tecnologia compara a execução com o modelo original e mede a precisão, o tempo de reação e o alinhamento dos movimentos. No boxe, são avaliados elementos como o jab, o jogo de pés, a rotação do tronco, a velocidade, a postura e a coordenação.

Além da componente técnica, a dotmoovs aposta numa experiência divertida já que através de desafios e torneios digitais, os utilizadores competem com pessoas de todo o mundo em diferentes modalidades: futebol freestyle, dança, fitness funcional e boxe. “A nossa arena internacional é um espaço de competição saudável, com classificações justas porque a avaliação é feita pela IA. Já tivemos torneios de truques com bola, coreografias de dança ou séries de agachamentos — tudo monitorizado pela aplicação”.

A blockchain funciona como uma camada de confiança. Os resultados das provas avaliadas pela IA podem ser registados de forma auditável, rastreável e imutável, o que impede alterações posteriores. O utilizador mantém a propriedade dos vídeos e dados, pode apagá-los e decide com quem os partilha.

“Este projeto demonstra o potencial da tecnologia para responder a desafios estruturais do setor do desporto, tornando os processos de avaliação, descoberta e valorização de talento mais acessíveis, transparentes e escaláveis”, explica Francisco Varela.

Existe também uma economia interna. Os atletas recebem “dots” e “sparks” de acordo com o compromisso e a qualidade dos exercícios. Estas moedas podem reduzir o preço da subscrição seguinte, dar acesso a torneios ou ser trocadas por produtos e serviços de parceiros. Os maiores de 18 anos podem ainda convertê-las em tokens MOOV, ligados à blockchain, para participar em decisões sobre novas modalidades e funcionalidades.

A aplicação pode ser usada gratuitamente em exercícios isolados, grupos de amigos e desafios coletivos. O acesso a planos personalizados funciona através de uma subscrição. Ainda na versão anterior da plataforma, os preços são de 6,99€ por semana, 25,99€ por mês ou 119,99€ por ano. Os valores da nova aplicação, cujo lançamento está previsto para o final de agosto, ainda vão ser atualizados.

A utilização está aberta a atletas amadores e profissionais a partir dos 15 anos. A empresa prepara um modo com controlo parental para permitir o acesso seguro aos mais novos. A versão integral dedicada à descoberta de talentos e à ligação com olheiros e patrocinadores deverá chegar no início de 2027. Caberá sempre ao atleta decidir se quer apresentar os resultados a terceiros.

A dotmoovs tem cinco projetos-piloto em curso com personal trainers, treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas e atletas de diferentes níveis. A nova versão fica disponível para o público em setembro. A médio prazo, a empresa quer incluir outras modalidades e estabelecer parcerias com clubes, federações e marcas internacionais.

“Acreditamos que a combinação de Inteligência Artificial, blockchain e ciência do desporto pode contribuir para aproximar atletas, treinadores, clubes e patrocinadores num ambiente digital global”, afirma Francisco. O objetivo passa por criar essa tecnologia a partir de Portugal e provar que o lugar onde um atleta nasceu ou treina não tem de determinar as oportunidades que recebe.

ARTIGOS RECOMENDADOS