O corpo avisa antes de colapsar, mas nem sempre somos capazes de ouvir. No caso de Ana Rita Pinto, o sinal foi claro e impossível de ignorar: um burnout profundo, em 2023, depois de anos a trabalhar numa das áreas mais intensas da saúde — a obstetrícia. “Foi um momento muito doloroso. Vi-me num poço sem fundo e percebi que já não estava capaz”, recorda. Enfermeira parteira, mentora e doula, habituada a sustentar emocionalmente mulheres e famílias em momentos de enorme transformação, foi obrigada a inverter o papel. Esse ponto de rutura viria a transformar-se no início de um novo caminho e daria vida ao PULSO.
“Quando cheguei ali, senti que já não tinha nada a perder. Ou ficava naquele lugar, ou refazia a minha vida”, conta. O processo passou por terapia, por um mergulho profundo em práticas de autoconhecimento e por um trabalho intenso de reconexão corpo-mente, através do rebirthing e de técnicas de respiração consciente. “Durante cerca de nove meses, renasci mesmo. Redescobri-me enquanto mulher, enquanto profissional e enquanto pessoa.”
É dessa experiência pessoal — íntima, exigente e transformadora — que nasce o PULSO, um programa de mentoria criado para profissionais de saúde que vivem em exaustão, desmotivação ou perda de sentido na profissão. “O PULSO nasce da minha história, mas também das conversas que fui tendo com colegas. Há muitos profissionais que estão no limite e não têm com quem falar, nem quem os veja verdadeiramente”, explica.
Ao longo de mais de uma década de prática clínica, Ana Rita habituou-se a trabalhar num território onde ciência e humanidade se cruzam a cada segundo. Acompanha gravidez, trabalho de parto, parto e pós-parto, mas o seu olhar vai além do procedimento técnico. “Estamos a ver uma nova vida a nascer, mas também uma despedida muito silenciosa de quem aquela mulher e aquele homem eram até ali”, diz. Para ela, o cuidado nunca é “uma coisa só”. É técnica, sim, mas também presença, escuta, toque e palavra certa.
Essa visão integrada acompanha todo o seu percurso. Licenciada em Enfermagem desde 2013, especializada em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica desde 2017, com formação em aconselhamento em aleitamento materno, emergências obstétricas e reanimação neonatal, Ana Rita trabalhou tanto no setor público como no privado. Em 2025, concluiu a formação como doula, num caminho que, segundo ela, veio “completar” a sua forma de cuidar. “A ciência e a técnica são fundamentais, mas sozinhas não chegam. O cuidado precisa de humanidade.”
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O burnout não foi, por isso, um acidente isolado, mas um sintoma de algo maior. “O sistema de saúde está a ruir por dentro. E quando a base — os profissionais — está exausta, tudo começa a falhar”, afirma. Foi essa consciência que deu forma ao PULSO: um espaço seguro de reflexão, reconexão e reconstrução profissional e pessoal.
O programa, lançado oficialmente a 11 de novembro, tem a duração de quatro meses e funciona em formato de mentoria individual, com oito sessões quinzenais online, acompanhamento contínuo via WhatsApp e acesso a materiais de apoio. Ao longo do processo, são abordados temas como o cansaço crónico e o burnout, o reencontro com a motivação inicial, o alinhamento com o propósito profissional, a gestão de expectativas, os limites no trabalho, a autorresponsabilidade, o autocuidado e o planeamento consciente do futuro.
“Não é um programa teórico nem motivacional, é muito prático”, sublinha Ana Rita. “Falamos de coisas simples, possíveis, reais. Cinco minutos de respiração. Cinco minutos de escrita. Pequenos gestos que ajudam a regular o sistema nervoso e a devolver clareza.” A ideia é simplificar, não acrescentar mais uma exigência à agenda de quem já vive sobrecarregado. “Cuidar não pode ser sinónimo de se perder.”
O programa implica um investimento de 560€, com possibilidade de pagamento faseado em quatro prestações mensais de 140€. As inscrições devem ser feitas online, mas as vagas são limitadas, precisamente para garantir acompanhamento próximo e personalizado. “Este é um espaço de presença, não dá para fazer em massa”, explica.
Mais do que ajudar profissionais a lidar com o dia a dia, o PULSO propõe algo mais profundo: ajudar a escolher. Escolher como querem trabalhar, até onde podem ir, o que faz sentido manter e o que precisa de mudar. “Há momentos em que mudar não é falhar. É escutar o corpo e respeitar a vida”, salienta.
No centro de tudo está uma ideia simples, mas poderosa: o corpo tem conhecimento. “Costumo dizer muitas vezes: respira. O teu corpo sabe o que faz.” É essa confiança que Ana Rita procura devolver, tanto às famílias que acompanha durante os partos como aos profissionais que chegam ao PULSO cansados, confusos ou desiludidos. Cuidar dos outros, afinal, é também devia cuidar da própria saúde. E recomeçar, mesmo depois do colapso, também pode ser um ato de coragem.

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