Chegou a Braga há seis anos, mas a relação com Portugal começou muito antes, num destino improvável. Em 2013, Kayane Gavrilof aterrou em Abrantes através de um programa Erasmus, uma experiência que, admite, mudou tudo. “Não vivi numa bolha internacional. Estive integrada com estudantes portugueses e isso marcou-me muito”, recorda.
Kayane nasceu em Istambul, tem 33 anos e define-se como “creActivist educator”, expressão que diz resumir a forma como olha para o mundo e para o trabalho que faz hoje em Braga, onde criou o What If Creative Lab, um projeto que cruza criatividade, comunidade e experimentação.
Depois da passagem pelo programa Erasmus, a educadora continuou a regressar a Portugal, muitas vezes através de voluntariado. Em 2017, decidiu mudar-se definitivamente para Lisboa. Trabalhou em várias áreas, como restauração, babysitting, festivais de cinema e projetos educativos, enquanto estudava e aprendia português. Foi também nessa altura que fez mestrado em Educação Artística na Universidade de Lisboa, onde começou a repensar o conceito de criatividade. “Percebi que criatividade não é um talento. É uma forma de pensar e de estar”, explica.
Em 2020, mudou-se para Braga. Lisboa já não lhe oferecia o que procurava. “Começou a parecer-se com muitas outras capitais europeias. Braga ainda tinha uma simplicidade e uma ligação mais humana”, diz. Foi aqui que construiu comunidade e decidiu ficar, mesmo estando atualmente a fazer doutoramento em Lisboa.
O What If Creative Lab nasceu em abril de 2025, desse percurso, mas também de uma inquietação mais profunda. “Comecei a perceber que muitas das ideias que temos sobre a vida não são fixas. Podemos pensar de outra forma”, explica.
É precisamente essa ideia que estrutura o projeto. O What If Creative Lab apresenta-se como um espaço de exploração criativa e ligação humana, onde o foco não está no resultado final, mas no processo. A proposta passa por criar ambientes onde as pessoas possam sair das rotinas, testar ideias e desenvolver competências como pensamento criativo, colaboração e resolução de problemas.

“Vivemos num sistema que valoriza muito a adaptação e a performance dentro de estruturas já definidas. Mas hoje, mais do que o que sabemos, importa o que conseguimos fazer com isso”, diz. Na prática, o projeto materializa-se em diferentes formatos. Há workshops independentes, experiências facilitadas e a ambição de criar programas imersivos, como retiros criativos. Tudo assenta em atividades participativas, com jogos, dinâmicas de grupo e exercícios que incentivam a experimentação.
Entre as iniciativas já em curso estão as sessões de “Creative Portuguese”, encontros semanais onde a língua portuguesa é praticada através de jogos e atividades criativas, longe do modelo tradicional de sala de aula. Decorrem às terças-feiras, às 10h30, no Guria! Coffee Spot.
“Não seguimos uma lógica de ensino clássica. Exploramos a língua juntos. Quando as pessoas trazem algo de si, a língua deixa de ser algo que se aprende e passa a ser algo que se vive”, explica. Há também noites de jogos mensais, abertas a adultos, com propostas simples, inclusivas e sem competição. O objetivo é criar um ambiente descontraído onde as pessoas se possam ligar umas às outras. Muitos participantes chegam sozinhos e saem com novas ligações. Mais recentemente, o projeto começou a trabalhar com os miúdos e jovens entre os nove e os 17 anos, sobretudo em contextos que ajudam à integração de crianças de diferentes origens.
O público é, no entanto, abrangente. Pode incluir locais, expatriados, profissionais de diferentes áreas ou simplesmente pessoas curiosas. “Quando me perguntam para quem é, digo sempre: para todos. Mas sobretudo para quem sente que quer mudar alguma coisa ou explorar novas formas de pensar.” Outra vertente em crescimento são as experiências personalizadas para grupos, escolas e empresas, com foco em comunicação, trabalho em equipa e criatividade aplicada.
Ao contrário de muitos projetos do género, o What If Creative Lab tenta manter uma lógica acessível. Algumas atividades funcionam com preço fixo, outras com base em donativo. “Não quero que o dinheiro seja a barreira principal. Mas também é importante valorizar o tempo e o trabalho envolvidos”, explica. Até agora, os valores têm rondado, no máximo, os cinco euros por sessão.
Mais do que um conjunto de eventos, Kayane vê o projeto como uma base em construção. Um espaço onde diferentes pessoas podem contribuir de formas distintas, seja com ideias, participação ou colaboração. “Não vejo isto como uma solução. Vejo como um espaço onde as pessoas podem pensar juntas e experimentar”, diz.
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Num ano, a criativa e educadora já organizou 45 workshops na cidade. “No primeiro encontro pensei que não iria aparecer ninguém. Preparei-me para qualquer cenário: viesse uma pessoa, dez ou 20. Passado um ano, fico genuinamente feliz com o percurso que temos feito até aqui. São 45 encontros de um projeto que ainda está a começar”.
Para o futuro, o objetivo passa por desenvolver programas mais estruturados, como retiros criativos para adultos e miúdos, e expandir o trabalho com organizações e empresas. A longo prazo, acredita que o projeto pode ter impacto real na forma como as pessoas trabalham, aprendem e se relacionam. “Não se trata de mudar tudo de um dia para o outro. Trata-se de criar pequenas mudanças de perspetiva que, com o tempo, podem transformar muito mais.”
O próximo encontro já tem data marcada. No sábado, 25 de abril, às 19 horas, há uma nova sessão de “Drink & Play 8, Game Night in ENG”, no Guria Specialty Coffee, em Braga. A iniciativa é aberta a todos e funciona com um modelo acessível: a participação custa 5€ por pessoa, ou 3€ para estudantes e voluntários, com pagamento no local.
As inscrições podem ser feitas através das redes sociais do projeto ou por contacto direto com a organização.

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