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Leonel está a viajar pelo mundo de Harley-Davidson. Na Rússia encontrou “o melhor povo do mundo”

O bracarense já percorreu mais de 22 mil quilómetros, rumo ao oriente. Está a ser uma verdadeira odisseia.

Quando viu um automóvel fazer inversão na estrada e aproximar-se da sua Harley-Davidson, Leonel Ferraz pensou que havia algum problema. Afinal, o casal que seguia no carro tinha voltado para trás apenas para o avisar de que a estrada onde circulava terminava sem saída. Se tivesse continuado, só descobriria o erro cerca de 200 quilómetros depois.

“Fizeram tudo isto apenas para ajudar um desconhecido”, conta à NiB. “Foi um daqueles momentos que não se esquecem.”

Não foi um caso isolado. Desde que entrou na Rússia, na segunda-feira, 13 de julho, o motociclista bracarense de 62 anos perdeu a conta às pessoas que o convidaram para jantar, abriram as portas de casa, insistiram em pagar uma refeição ou fizeram questão de o ajudar sem esperar qualquer recompensa. Depois de milhares de quilómetros percorridos por estradas russas, há uma conclusão que repete sem hesitar. “É o melhor povo do mundo. Acolhedor, amistoso, prestável e altruísta. Nunca vi nada assim.”

A frase ganha ainda mais peso quando se conhece a história de Leonel. Durante quase três décadas, viveu praticamente sem tempo para si. Geriu uma empresa de táxis em Braga, coordenou motoristas, fez milhares de viagens entre a cidade, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro e a estação de Campanhã e habituou-se a dias em que o relógio ditava cada decisão. Ao mesmo tempo, mantinha uma pequena exploração agrícola em Vila Verde, onde dividia o tempo entre os animais, a terra e as restantes responsabilidades do dia a dia.

A liberdade, durante muitos anos, ficou sempre para depois. Até que decidiu reformar-se há pouco mais de um ano. Ao contrário do que muitos fazem, Leonel não trocou o trabalho por uma vida mais calma. Vendeu a empresa de táxis, arrendou a quinta e decidiu fazer aquilo que durante anos foi adiando.

“Reformei-me. Sou um homem livre. A liberdade passou a ter duas rodas.”, admite à New in Braga.

Para a concretizar, escolheu uma Harley-Davidson de 1999. Comprou-a em segunda mão, investiu vários milhares de euros na recuperação mecânica e adaptou-a para longas viagens. A mota ganhou rapidamente um nome: Papa-Léguas. Não por ser a mais rápida, mas porque parecia preparada para enfrentar praticamente qualquer estrada.

A primeira grande aventura começou na primavera de 2025. Durante mais de seis meses percorreu cerca de 34 mil quilómetros, atravessou 45 países, visitou 44 capitais e acumulou histórias que lhe mostraram que viajar sozinho raramente significa estar sozinho.

Na Escócia conheceu Ross durante uma travessia de ferry entre Belfast e Cairnryan. A conversa prolongou-se estrada fora e acabou com um convite inesperado para passar a noite em casa do novo amigo, perto de Glasgow.

Na Alemanha reencontrou um antigo cliente dos tempos em que conduzia táxis em Braga. O encontro terminou à volta de um barbecue, numa cidade que Leonel sonhava conhecer desde 2009, muito antes de imaginar que um dia a pisaria de mota.

Na Albânia, um mecânico rodeado de apaixonados por Ducati resolveu problemas técnicos que ameaçavam comprometer a viagem. Na Suécia, dois motociclistas ofereceram-lhe café durante uma paragem. Na Grécia, um camionista entregou-lhe um saco cheio de laranjas apenas porque achou que o viajante português podia precisar.

Também houve momentos menos felizes. Na Turquia escapou a uma tentativa de roubo depois de perceber que dois jovens o estavam a cercar enquanto consultava o telemóvel. Houve ainda uma virose, dificuldades em encontrar pneus compatíveis para a Harley e quatro quedas — todas com a mota parada.

 

 
 
 
 
 
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Ainda assim, quando regressou a Portugal, percebeu que a maior recordação daquela viagem não eram os monumentos nem os quilómetros percorridos. “Eram sempre as pessoas.”

Foi precisamente essa certeza que o levou a preparar uma nova aventura. No dia 18 de abril voltou a colocar as malas na Papa-Léguas, despediu-se de Braga e apontou a bússola para oriente. O plano passava por atravessar a Europa, entrar na Rússia e, se conseguir transportar a Harley de barco, continuar depois pelo Japão ou pela Coreia do Sul. A rota inclui ainda a China, Macau e a Malásia, podendo mais tarde estender-se a outros continentes.

Sem data de regresso, voltou a partir sozinho. Mas sabia, pela experiência do ano anterior, que dificilmente viajaria sem companhia durante muito tempo.

Atravessou vários países da Europa de Leste, passou pela Turquia, Arménia e Geórgia — dois destinos pelos quais admite ter ficado “completamente rendido” — antes de entrar finalmente na Rússia. Levava curiosidade, algum receio alimentado pelas histórias que ouvira ao longo dos anos e um visto turístico válido por 90 dias. Bastaram os primeiros dias para perceber que a realidade seria bastante diferente daquela que imaginava.

Ao longo das últimas semanas, Leonel percorreu milhares de quilómetros entre cidades como Moscovo, São Petersburgo e Ecaterimburgo. Visitou o famoso metro da capital russa, o Palácio de Catarina, percorreu avenidas largas, atravessou zonas industriais e passou horas rodeado por florestas e estradas onde, por vezes, parecia não existir mais ninguém.

O que mais o surpreendeu, porém, não foram os monumentos nem as dimensões do país. “Foram as pessoas.” À NiB, conta que praticamente todos os dias surgem episódios que lhe reforçam essa convicção.

Uma das histórias mais marcantes aconteceu quando seguia por uma estrada secundária. Ao fim de algum tempo, um casal russo fez inversão e aproximou-se da mota. Pensou que havia algum problema ou até que precisava de mostrar documentos. Afinal, os dois condutores tinham regressado apenas para o avisar de que estava a seguir por uma estrada sem saída.

“Se eles não tivessem voltado para trás, só ia perceber o erro quase 200 quilómetros depois. Fizeram isso apenas para ajudar um desconhecido.”

Dias mais tarde, a hospitalidade voltou a surpreendê-lo. Uma família convidou-o para jantar e insistiu para que passasse a noite em sua casa. A situação repetiu-se noutra cidade, onde acabou novamente à mesa com pessoas que conhecera apenas algumas horas antes. “É difícil explicar esta forma de receber quem vem de fora. Fazem-nos sentir em casa mesmo estando tão longe da nossa.”

Também perdeu a conta às vezes em que desconhecidos insistiram em pagar-lhe uma refeição, ofereceram boleia, ajudaram a ultrapassar pequenas barreiras linguísticas ou trataram de burocracias que sozinho lhe teriam levado horas. Diz que a gasolina custa entre 75 e 90 cêntimos por litro, que é possível fazer uma refeição por 4€ ou 5€, que a criminalidade é reduzida e que nunca se sentiu inseguro. “É exatamente o contrário daquilo que me diziam sobre este país.”

Até as abordagens mais inesperadas acabaram por se transformar em boas histórias. Enquanto descansava junto a um rio, em Ecaterimburgo, foi interpelado por um homem que queria apenas saber de onde vinha. “Quando respondi ‘Portugal’, abriu um sorriso enorme e ficou completamente surpreendido.”

Noutras cidades começou a notar outro fenómeno curioso: eram cada vez mais as pessoas que lhe pediam uma fotografia. “Ao início estranhava. Agora já sei que quase todos os dias alguém vai querer tirar uma selfie comigo e com a mota.”

Leonel

A Papa-Léguas também se tornou uma espécie de cartão de visita. A Harley-Davidson de 1999 chama a atenção por onde passa e acaba frequentemente por servir de pretexto para longas conversas com outros motociclistas e curiosos.

Nem tudo, claro, tem corrido como planeado. Depois de mais de 22 mil quilómetros praticamente sem problemas mecânicos, a Harley sofreu recentemente uma das raras avarias da viagem. Um rolamento gripou quando seguia perto de Ecaterimburgo, obrigando-o a interromper a marcha e a pedir assistência.

“O mecânico mais próximo ficava a cerca de 35 quilómetros. Na altura pensei apenas que fazia parte da viagem.”

A preocupação desapareceu rapidamente quando conheceu Pavel, o mecânico que acabou por reparar a mota. “Foi de um profissionalismo incrível. Trabalhou com uma atenção ao detalhe impressionante e, no fim, ainda verificou tudo novamente. Devolveu-me a confiança para continuar.”

A passagem pela Turquia também lhe deixou uma história difícil de esquecer. Durante um feriado religioso, precisava urgentemente substituir uma pequena peça da mota. A oficina onde parou decidiu abrir as portas de propósito para o ajudar. Como a peça não existia, foi desenhada e produzida numa impressora 3D.

Quando tentou pagar o trabalho, ouviu uma resposta que continua a recordar. “Disseram-me que aquele era um dia sagrado e que ajudar alguém era mais importante do que receber dinheiro.”

Nem os dias mais difíceis lhe tiraram a vontade de continuar. Na Rússia apanhou uma tempestade de granizo que descreveu como uma das mais violentas que alguma vez viu. “As pedras eram enormes. Nunca tinha visto granizo assim.”

Houve dias em que planeou percorrer mais de 500 quilómetros e acabou por fazer pouco mais de 300 devido ao estado das estradas, ao trânsito de camiões ou às obras constantes. À medida que avançava para leste, começou ainda a atravessar sucessivos fusos horários. “Há alturas em que já nem sei bem em que horas estou. Ando a mudar de fuso de dois em dois dias.”

Ainda assim, garante que nunca se sentiu verdadeiramente sozinho. Ao longo da viagem reencontrou antigos clientes dos tempos da Taxibraga, reviu amigos feitos na aventura europeia do ano passado, conheceu motoclubes, foi recebido em churrascos improvisados, encontrou até garrafas de Super Bock num supermercado polaco e viu dois paramédicos interromperem o trabalho apenas para lhe recomendarem um restaurante onde pudesse provar comida tradicional.

São pequenos episódios que, admite, dificilmente aparecerão em qualquer roteiro turístico, mas que acabaram por definir a viagem.

Há, contudo, uma alteração importante aos planos iniciais. Leonel percebeu, entretanto, que sair da Rússia para visitar o Cazaquistão, a Mongólia ou outros países da Ásia Central poderá impedir o seu regresso ao território russo devido às condições do visto. Depois de conversar com outros viajantes, decidiu não arriscar.

Se tudo correr como previsto, chegará a Vladivostok nas próximas semanas. A partir daí, espera colocar a Papa-Léguas num barco rumo ao Japão ou à Coreia do Sul. Depois seguem-se China, Macau, Malásia e, quem sabe, outros destinos asiáticos. Mais à frente, o sonho poderá continuar na América do Sul, caso consiga transportar a Harley até a Argentina.

Até lá, Leonel continua a fazer aquilo que decidiu quando se reformou: acordar, olhar para o mapa, ligar o motor e deixar que seja a estrada — e as pessoas que encontra pelo caminho — a escrever o resto da viagem.

Poderá acompanhar a viagem através das redes sociais do bracarense. Carregue na galeria para espreitar algumas das aventuras do Leonel.

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