Depois de mais de 20 anos de portas fechadas, vários projetos para recuperar o espaço e um investimento superior a 29 milhões de euros, a antiga Fábrica Confiança está finalmente pronta para reabrir. A meio de setembro, o histórico edifício de Braga começa a receber estudantes da Universidade do Minho e torna-se na maior residência universitária pública do País.
A Residência Universitária da Fábrica Confiança estreia-se já no arranque do ano letivo 2026/2027, cujas atividades letivas começam a 14 de setembro na UMinho. O edifício na Rua Nova de Santa Cruz, em São Victor, terá capacidade para 786 camas.
A abertura encerra um processo particularmente longo para um edifício que faz parte da memória da cidade. A Confiança nasceu em 1894, ainda como Silva Almeida & C.ª, numa pequena oficina instalada no mesmo terreno. Nas décadas seguintes, cresceu e ganhou dimensão industrial. Em 1921, foi projetada uma grande ampliação, assinada pelo arquiteto José da Costa Villaça, que implicou a substituição das primeiras instalações pelo complexo fabril que marcaria a paisagem da Rua Nova de Santa Cruz.
Ali produziram-se durante décadas sabões, sabonetes, perfumes e produtos de cosmética. A fábrica chegou a ser uma das unidades industriais mais relevantes da cidade e o complexo continuou a crescer, com novas ampliações em 1945 e 1951. Chegou também a dispor de estruturas destinadas aos trabalhadores, entre as quais uma creche, consultório médico, biblioteca, refeitório e até uma sala de teatro com projetor de cinema.
A produção terminou em 2005 e o edifício ficou devoluto. Foi adquirido pelo Município de Braga em 2012 e, depois de vários anos marcados por discussões sobre o futuro do espaço e tentativas de venda, acabou classificado como Monumento de Interesse Público em 2020. A solução encontrada seria precisamente a transformação numa residência universitária, conciliando a preservação do património industrial com uma das necessidades mais urgentes da cidade, isto é, o alojamento estudantil.
O contrato da empreitada foi assinado com o bracarense Grupo Casais a 29 de novembro de 2024. Nessa altura, apontava-se para uma execução em cerca de 400 dias e um investimento de 25,5 milhões de euros. O valor global entretanto divulgado pela Câmara Municipal ultrapassa os 29 milhões de euros, com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através do Programa Nacional de Alojamento para o Ensino Superior (PNAES).
Entre a assinatura da empreitada e a abertura terão passado, assim, cerca de 21 meses. Pelo caminho, o projeto passou por diferentes estimativas quanto ao número final de camas, até chegar às 786 agora confirmadas pelos SASUM.
A residência distribui-se por dois edifícios. Um corresponde ao antigo complexo industrial recuperado e outro foi construído de raiz nas traseiras. A intervenção procurou conservar a identidade arquitetónica da Confiança, desde as fachadas e a cor característica do edifício até vários elementos associados ao seu passado fabril. “Não quisemos apagar a Confiança, quisemos dar-lhe uma nova vida ao serviço das novas gerações. Este edifício mantém a sua alma e a sua memória industrial, mas passa agora a preparar o futuro de Braga através do conhecimento e do acesso à habitação”, afirma o presidente da Câmara, João Rodrigues.
Esse equilíbrio foi também um dos maiores desafios técnicos da obra. O projeto recorreu ao sistema industrializado CREE, que combina madeira e betão e permite integrar componentes pré-fabricados, e à tecnologia Digital Twin, pensada para otimizar a gestão energética e a manutenção do edifício. A intervenção contempla ainda uma componente dedicada à preservação do espólio da Confiança, mantendo a ligação à antiga saboaria.
Dentro da residência, tudo foi pensado para que uma parte significativa da rotina dos estudantes possa acontecer sem sair do complexo. Existem quartos individuais, duplos, apartamentos e estúdios, incluindo unidades adaptadas a pessoas com mobilidade condicionada. Todos os quartos dispõem de frigorífico e as diferentes tipologias contam com instalações sanitárias privativas.
Os residentes terão acesso a cozinhas equipadas distribuídas pelos pisos, onde poderão preparar as próprias refeições, além de zonas destinadas a refeições e convívio. Existem também salas de estudo para trabalho individual ou em grupo, lavandaria self-service e ginásio, o que permite concentrar no mesmo edifício vários serviços necessários no dia a dia.
O complexo inclui ainda espaços comuns de convívio e áreas de apoio à gestão e ao funcionamento da residência, além das zonas destinadas aos serviços dos SASUM. A organização procura criar diferentes ambientes entre os quartos e as áreas partilhadas, com locais para estudar, cozinhar, fazer refeições, tratar da roupa, praticar exercício ou simplesmente passar algum tempo fora do quarto. A limpeza regular das áreas comuns fica a cargo dos serviços da residência.
A diferença deverá sentir-se sobretudo no preço. Para o ano letivo 2026/2027, um estudante bolseiro pagará 94€ por mês por uma cama em quarto duplo ou 150€ por um quarto individual. Para os não bolseiros, as mensalidades serão de 163€ no quarto duplo e 213€ no individual. Os valores incluem água, eletricidade, gás e acesso à Internet.
A prioridade na atribuição das vagas é dada aos estudantes bolseiros deslocados, seguindo-se estudantes com deficiência ou necessidades educativas específicas e depois estudantes não bolseiros deslocados, incluindo alunos de mobilidade e internacionais. Caso sobrem lugares, poderão ainda ser alojados estudantes de outras instituições de ensino superior e outros membros da comunidade académica.
Para quem já frequentava a UMinho, o período geral de candidaturas decorreu entre 20 de maio e 21 de junho. Já os estudantes que entram este ano pela primeira vez só podem candidatar-se depois de efetuarem a matrícula e inscrição, através de um novo período aberto desde 24 de agosto. O pedido é feito online no Portal dos SASUM.
O regulamento prevê que os contratos tenham, por norma, uma duração de dez meses, acompanhando o ano letivo, e estabelece que os estudantes já inscritos e aqueles colocados pela primeira vez na primeira fase devem entrar nas residências até 15 de setembro.
Para Braga, a escala da residência torna o projeto especialmente relevante. Antes desta abertura, os SASUM indicavam uma capacidade de 845 camas nas residências já existentes na cidade. A Confiança acrescenta, sozinha, mais 786 lugares à oferta associada ao Campus de Gualtar.
João Rodrigues acredita que esse reforço poderá ter consequências fora da própria universidade. “Ao acolhermos aqui 786 estudantes que antes dependiam do mercado privado, estamos a libertar apartamentos na cidade e a aumentar a oferta de habitação para as famílias de Braga”, defende.
Carregue na galeria para conhecer a maior residência universitária do País.







